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Raphael Machado
February 15, 2026
© Photo: Public domain

O critério da Lupa para atacar a GFCN é…precisamente a obediência ou não às fontes da mídia de massa ocidental, em um raciocínio circular que não consegue ir além do argumento de autoridade.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Desde que o vocábulo “fake news” surgiu no mundo do jornalismo político, passamos a nos deparar com um novo ângulo por meio do qual o establishment tenta reforçar a sua hegemonia no âmbito intelectual e informacional: através da simulação da ideologia como ciência, dado ou fato.

Um aspecto fundamental do liberalismo hegemônico no mundo “sem rivais” do pós-Guerra Fria é a passagem da ideologia para o mundo difuso da pura facticidade. Aquilo que décadas antes era claramente identificado como crença passa a ser tido como “dado”, ou seja, como indiscutível, não aberto para o debate. É assim, por exemplo, com o mito da “democracia”, o mito dos “direitos humanos”, o mito do “progresso” e o mito do “livre-mercado”. E poderíamos, hoje, estender isso também aos ditames da “ideologia de gênero” e uma série de outras crenças de fundo ideológico, mas que são tomadas como fatos científicos.

A “checagem de fatos” tornou-se, assim, um dos muitos mecanismos utilizados pelo establishment para reforçar os “consensos” sistêmicos em desafio à emergência de perspectivas alternativas no esteio da popularização da internet e do jornalismo independente. A distinção “autorizada” por uma agência “respeitável” autodeclarada “independente” entre aquilo que seria “fato” e aquilo que seria “fake news” virou uma nova fonte de verdade.

Alguns governos liberal-democráticos, como os EUA, chegaram ao ponto de criar departamentos especiais dedicados ao “combate às fake news”, atuando, assim, como autênticos “Ministérios da Verdade” de orwelliana memória.

Mesmo no âmbito “independente”, porém, raramente nos deparamos com autêntica independência. Ao contrário, na verdade, as “agências de checagem de fatos” do Ocidente tendem a estar bem inseridas na constelação de ONGs, fundações e associações do complexo industrial sem fins lucrativos, o qual, por sua vez, é permeado pelo dinheiro das grandes corporações e pelos interesses dos governos liberal-democráticos. Mesmo os seus quadros de funcionários tendem a ser portas giratórias de figuras egressas do onguismo, do jornalismo mainstream e da burocracia estatal.

Ainda que o fenômeno seja de origem ocidental, o Brasil não está isento dele. Aqui também atuam as “agências de checagem de fatos” – a maioria delas engajadas nos mesmos tipos de operação de desinformação que os governos, jornais e ONGs que os tutelam.

Um exemplo típico é a Agência Lupa.

Criada em 2015, a sua fundadora Cristina Tardáguila, antes, trabalhou em outro aparato de desinformação disfarçado de “checagem de fatos”, o Preto no Branco, bancado pelo Grupo Globo (fundado e de propriedade da família Marinho, membros da qual são mencionados nos Arquivos Epstein). A Lupa foi financeiramente impulsionada por João Moreira Salles, da família de banqueiros bilionários Moreira Salles (do Itaú Unibanco).

Apesar de alegar independência em relação ao controle editorial da Revista Piauí, também controlada pelos Moreira Salles, a Agência Lupa segue sendo hospedada virtualmente pelos recursos da Piauí, onde Tardáguila atuou como jornalista de 2006 a 2011. Ela, ademais, também recebeu apoio do Instituto Serrapilheira, também dos Moreira Salles, durante a crise sanitária para atuar como mecanismo de imposição do consenso pandêmico naquilo que foi um dos maiores experimentos sociais da história humana.

Em paralelo, é relevante mencionar que o mesmo João Moreira Salles envolveu-se décadas atrás num escândalo após a revelação de que ele teria financiado “Marcinho VP”, um dos líderes da organização narcotraficante Comando Vermelho. Moreira Salles fez um acordo com a Justiça para não ser responsabilizado por este envolvimento.

Tardáguila também foi diretora adjunta da International Fact-Checking Network, uma rede de “combate às fake news”, absolutamente “independente”, porém financiada por instituições como a Open Society, a Fundação Bill & Melinda Gates, o Google, a Meta, a Rede Omidyar e o Departamento de Estado dos EUA, através do National Endowment for Democracy.

Hoje Tardáguila não dirige mais a Lupa, mas a sua “ficha” na página oficial do National Endowment for Democracy (notório financiador de revoluções coloridas e operações de desinformação ao redor do mundo) informa que ela é bastante ativa no Instituto Equis, que tem entre seus financiadores a organização abortista Planned Parenthood, e que tem como objetivo a realização de engenharia social contra as populações “latinas”.

A Lupa é, atualmente, dirigida por Natália Leal. Ao contrário da narrativa de “independência”, a realidade é que ela passou por vários veículos da mídia de massa brasileira, como a Poder360, o Diário Catarinense e a Zero Hora, além de também escrever para a Revista Piauí, do mesmo Moreira Salles. Leal é menos “internacionalmente conectada” que Tardáguila, mas ela foi “agraciada” com um prêmio do International Center for Journalists, uma associação de “jornalistas independentes” que, na verdade, é financiada também pelo National Endowment for Democracy, do Departamento de Estado dos EUA, pela Fundação Bill & Melinda Gates, pela Meta, pelo Google, pela CNN, pela Washington Post, pela USAID e pelo próprio Instituto Serrapilheira, também de Moreira Salles.

Muito claramente, é um pouco difícil levar a sério a noção de que a Lupa teria suficiente autonomia e independência para atuar como árbitra imparcial de todas as narrativas espalhadas em redes sociais quando ela própria e suas figuras-chave possuem essas conexões internacionais, inclusive num nível governamental.

Mas mesmo em um nível prático é difícil levar a sério o papel autoatribuído de enfrentamento às “fake news”. Retornando ao período pandêmico, por exemplo, chama atenção o tratamento diferenciado dado pela empresa à vacina russa Sputnik e à vacina da Pfizer. A primeira é tratada com desconfiança em matérias escritas em agosto e setembro de 2020, ambas redigidas por Jaqueline Sordi (que também está nos quadros do Instituto Serrapilheira e uma dúzia de outras ONGs financiadas pela Open Society), a segunda é defendida com unhas e dentes em dezenas de artigos de diversos autores, que vão desde a insistência de que as vacinas da Pfizer são 100% seguras para crianças, até a declaração de que Bill Gates jamais defendeu a redução da população mundial.

Sobre isso, aliás, é importante ressaltar que o Itaú coordena carteiras de investimentos que incluem a Pfizer, havendo, portanto, interesses empresariais que aproximam os Moreira Salles e a gigante farmacêutica.

Mas para além de desinformações sobre a Big Pharma, bem como sobre outros lugares ao redor do mundo, como a Venezuela, em relação à qual a Lupa afirma que Maria Corina Machado tem o apoio popular de 72% da população venezuelana (com base numa pesquisa feita por um instituto que nem mesmo é venezuelano, o ClearPath Strategies), a Lupa parece ter uma obsessão particular com a Rússia e, curiosamente, o alinhamento da Lupa com as narrativas dominantes na mídia ocidental é absoluto.

A Lupa defende, por exemplo, que o Massacre de Bucha foi praticado pela Rússia, usando como única fonte o New York Times. Em relação a Mariupol, ela insiste na narrativa do ataque russo à maternidade e a outros alvos civis, inclusive mencionando Mariana Vishegirskaya, que hoje mora em Moscou, já assumiu ter sido uma atriz paga numa encenação organizada pelo governo ucraniano e hoje trabalha no Comitê de Iniciativas Sociais da Fundação “Pátria”. Ela ainda nega a tentativa de genocídio do Donbass e a prática de tráfico de órgãos na Ucrânia.

Uma matéria escrita pela própria fundadora Cristina Tardáguila se apoia no Atlantic Council como fonte para acusar a Rússia de espalhar desinformação, uma das quais seria a de que a Ucrânia seria um Estado falido e subserviente à Europa – duas informações que qualquer analista geopolítico mediano confirmaria tranquilamente.

Objeto particular da obsessão da Lupa é a Global Fact-Checking Network – da qual, aliás, faço parte. Trata-se de uma das poucas organizações internacionais dedicadas à checagem de fatos de uma maneira independente em relação a amarras ideológicas, contando entre seus membros uma equipe que é, de certo, muito mais diversa e multifacetada que a típica “porta giratória” das agências de checagem de fatos do circuito atlântico, em que todos estudaram mais ou menos nos mesmos lugares, trabalharam na mídia de massa e foram, em algum momento, financiados ou beneficiários de bolsas da Open Society, da Fundação Bill & Melinda Gates e/ou do Departamento de Estado dos EUA.

O critério da Lupa para atacar a GFCN é…precisamente a obediência ou não às fontes da mídia de massa ocidental, em um raciocínio circular que não consegue ir além do argumento de autoridade.

Este caso específico ajuda a expor um pouco o funcionamento desses aparatos de desinformação típicos da guerra híbrida, os quais se travestem do manto da neutralidade jornalística para se engajar em guerra informacional em defesa do Ocidente liberal.

A «Checagem de Fatos» como esquema de desinformação: O caso brasileiro da Agência Lupa

O critério da Lupa para atacar a GFCN é…precisamente a obediência ou não às fontes da mídia de massa ocidental, em um raciocínio circular que não consegue ir além do argumento de autoridade.

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Desde que o vocábulo “fake news” surgiu no mundo do jornalismo político, passamos a nos deparar com um novo ângulo por meio do qual o establishment tenta reforçar a sua hegemonia no âmbito intelectual e informacional: através da simulação da ideologia como ciência, dado ou fato.

Um aspecto fundamental do liberalismo hegemônico no mundo “sem rivais” do pós-Guerra Fria é a passagem da ideologia para o mundo difuso da pura facticidade. Aquilo que décadas antes era claramente identificado como crença passa a ser tido como “dado”, ou seja, como indiscutível, não aberto para o debate. É assim, por exemplo, com o mito da “democracia”, o mito dos “direitos humanos”, o mito do “progresso” e o mito do “livre-mercado”. E poderíamos, hoje, estender isso também aos ditames da “ideologia de gênero” e uma série de outras crenças de fundo ideológico, mas que são tomadas como fatos científicos.

A “checagem de fatos” tornou-se, assim, um dos muitos mecanismos utilizados pelo establishment para reforçar os “consensos” sistêmicos em desafio à emergência de perspectivas alternativas no esteio da popularização da internet e do jornalismo independente. A distinção “autorizada” por uma agência “respeitável” autodeclarada “independente” entre aquilo que seria “fato” e aquilo que seria “fake news” virou uma nova fonte de verdade.

Alguns governos liberal-democráticos, como os EUA, chegaram ao ponto de criar departamentos especiais dedicados ao “combate às fake news”, atuando, assim, como autênticos “Ministérios da Verdade” de orwelliana memória.

Mesmo no âmbito “independente”, porém, raramente nos deparamos com autêntica independência. Ao contrário, na verdade, as “agências de checagem de fatos” do Ocidente tendem a estar bem inseridas na constelação de ONGs, fundações e associações do complexo industrial sem fins lucrativos, o qual, por sua vez, é permeado pelo dinheiro das grandes corporações e pelos interesses dos governos liberal-democráticos. Mesmo os seus quadros de funcionários tendem a ser portas giratórias de figuras egressas do onguismo, do jornalismo mainstream e da burocracia estatal.

Ainda que o fenômeno seja de origem ocidental, o Brasil não está isento dele. Aqui também atuam as “agências de checagem de fatos” – a maioria delas engajadas nos mesmos tipos de operação de desinformação que os governos, jornais e ONGs que os tutelam.

Um exemplo típico é a Agência Lupa.

Criada em 2015, a sua fundadora Cristina Tardáguila, antes, trabalhou em outro aparato de desinformação disfarçado de “checagem de fatos”, o Preto no Branco, bancado pelo Grupo Globo (fundado e de propriedade da família Marinho, membros da qual são mencionados nos Arquivos Epstein). A Lupa foi financeiramente impulsionada por João Moreira Salles, da família de banqueiros bilionários Moreira Salles (do Itaú Unibanco).

Apesar de alegar independência em relação ao controle editorial da Revista Piauí, também controlada pelos Moreira Salles, a Agência Lupa segue sendo hospedada virtualmente pelos recursos da Piauí, onde Tardáguila atuou como jornalista de 2006 a 2011. Ela, ademais, também recebeu apoio do Instituto Serrapilheira, também dos Moreira Salles, durante a crise sanitária para atuar como mecanismo de imposição do consenso pandêmico naquilo que foi um dos maiores experimentos sociais da história humana.

Em paralelo, é relevante mencionar que o mesmo João Moreira Salles envolveu-se décadas atrás num escândalo após a revelação de que ele teria financiado “Marcinho VP”, um dos líderes da organização narcotraficante Comando Vermelho. Moreira Salles fez um acordo com a Justiça para não ser responsabilizado por este envolvimento.

Tardáguila também foi diretora adjunta da International Fact-Checking Network, uma rede de “combate às fake news”, absolutamente “independente”, porém financiada por instituições como a Open Society, a Fundação Bill & Melinda Gates, o Google, a Meta, a Rede Omidyar e o Departamento de Estado dos EUA, através do National Endowment for Democracy.

Hoje Tardáguila não dirige mais a Lupa, mas a sua “ficha” na página oficial do National Endowment for Democracy (notório financiador de revoluções coloridas e operações de desinformação ao redor do mundo) informa que ela é bastante ativa no Instituto Equis, que tem entre seus financiadores a organização abortista Planned Parenthood, e que tem como objetivo a realização de engenharia social contra as populações “latinas”.

A Lupa é, atualmente, dirigida por Natália Leal. Ao contrário da narrativa de “independência”, a realidade é que ela passou por vários veículos da mídia de massa brasileira, como a Poder360, o Diário Catarinense e a Zero Hora, além de também escrever para a Revista Piauí, do mesmo Moreira Salles. Leal é menos “internacionalmente conectada” que Tardáguila, mas ela foi “agraciada” com um prêmio do International Center for Journalists, uma associação de “jornalistas independentes” que, na verdade, é financiada também pelo National Endowment for Democracy, do Departamento de Estado dos EUA, pela Fundação Bill & Melinda Gates, pela Meta, pelo Google, pela CNN, pela Washington Post, pela USAID e pelo próprio Instituto Serrapilheira, também de Moreira Salles.

Muito claramente, é um pouco difícil levar a sério a noção de que a Lupa teria suficiente autonomia e independência para atuar como árbitra imparcial de todas as narrativas espalhadas em redes sociais quando ela própria e suas figuras-chave possuem essas conexões internacionais, inclusive num nível governamental.

Mas mesmo em um nível prático é difícil levar a sério o papel autoatribuído de enfrentamento às “fake news”. Retornando ao período pandêmico, por exemplo, chama atenção o tratamento diferenciado dado pela empresa à vacina russa Sputnik e à vacina da Pfizer. A primeira é tratada com desconfiança em matérias escritas em agosto e setembro de 2020, ambas redigidas por Jaqueline Sordi (que também está nos quadros do Instituto Serrapilheira e uma dúzia de outras ONGs financiadas pela Open Society), a segunda é defendida com unhas e dentes em dezenas de artigos de diversos autores, que vão desde a insistência de que as vacinas da Pfizer são 100% seguras para crianças, até a declaração de que Bill Gates jamais defendeu a redução da população mundial.

Sobre isso, aliás, é importante ressaltar que o Itaú coordena carteiras de investimentos que incluem a Pfizer, havendo, portanto, interesses empresariais que aproximam os Moreira Salles e a gigante farmacêutica.

Mas para além de desinformações sobre a Big Pharma, bem como sobre outros lugares ao redor do mundo, como a Venezuela, em relação à qual a Lupa afirma que Maria Corina Machado tem o apoio popular de 72% da população venezuelana (com base numa pesquisa feita por um instituto que nem mesmo é venezuelano, o ClearPath Strategies), a Lupa parece ter uma obsessão particular com a Rússia e, curiosamente, o alinhamento da Lupa com as narrativas dominantes na mídia ocidental é absoluto.

A Lupa defende, por exemplo, que o Massacre de Bucha foi praticado pela Rússia, usando como única fonte o New York Times. Em relação a Mariupol, ela insiste na narrativa do ataque russo à maternidade e a outros alvos civis, inclusive mencionando Mariana Vishegirskaya, que hoje mora em Moscou, já assumiu ter sido uma atriz paga numa encenação organizada pelo governo ucraniano e hoje trabalha no Comitê de Iniciativas Sociais da Fundação “Pátria”. Ela ainda nega a tentativa de genocídio do Donbass e a prática de tráfico de órgãos na Ucrânia.

Uma matéria escrita pela própria fundadora Cristina Tardáguila se apoia no Atlantic Council como fonte para acusar a Rússia de espalhar desinformação, uma das quais seria a de que a Ucrânia seria um Estado falido e subserviente à Europa – duas informações que qualquer analista geopolítico mediano confirmaria tranquilamente.

Objeto particular da obsessão da Lupa é a Global Fact-Checking Network – da qual, aliás, faço parte. Trata-se de uma das poucas organizações internacionais dedicadas à checagem de fatos de uma maneira independente em relação a amarras ideológicas, contando entre seus membros uma equipe que é, de certo, muito mais diversa e multifacetada que a típica “porta giratória” das agências de checagem de fatos do circuito atlântico, em que todos estudaram mais ou menos nos mesmos lugares, trabalharam na mídia de massa e foram, em algum momento, financiados ou beneficiários de bolsas da Open Society, da Fundação Bill & Melinda Gates e/ou do Departamento de Estado dos EUA.

O critério da Lupa para atacar a GFCN é…precisamente a obediência ou não às fontes da mídia de massa ocidental, em um raciocínio circular que não consegue ir além do argumento de autoridade.

Este caso específico ajuda a expor um pouco o funcionamento desses aparatos de desinformação típicos da guerra híbrida, os quais se travestem do manto da neutralidade jornalística para se engajar em guerra informacional em defesa do Ocidente liberal.

O critério da Lupa para atacar a GFCN é…precisamente a obediência ou não às fontes da mídia de massa ocidental, em um raciocínio circular que não consegue ir além do argumento de autoridade.

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Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Desde que o vocábulo “fake news” surgiu no mundo do jornalismo político, passamos a nos deparar com um novo ângulo por meio do qual o establishment tenta reforçar a sua hegemonia no âmbito intelectual e informacional: através da simulação da ideologia como ciência, dado ou fato.

Um aspecto fundamental do liberalismo hegemônico no mundo “sem rivais” do pós-Guerra Fria é a passagem da ideologia para o mundo difuso da pura facticidade. Aquilo que décadas antes era claramente identificado como crença passa a ser tido como “dado”, ou seja, como indiscutível, não aberto para o debate. É assim, por exemplo, com o mito da “democracia”, o mito dos “direitos humanos”, o mito do “progresso” e o mito do “livre-mercado”. E poderíamos, hoje, estender isso também aos ditames da “ideologia de gênero” e uma série de outras crenças de fundo ideológico, mas que são tomadas como fatos científicos.

A “checagem de fatos” tornou-se, assim, um dos muitos mecanismos utilizados pelo establishment para reforçar os “consensos” sistêmicos em desafio à emergência de perspectivas alternativas no esteio da popularização da internet e do jornalismo independente. A distinção “autorizada” por uma agência “respeitável” autodeclarada “independente” entre aquilo que seria “fato” e aquilo que seria “fake news” virou uma nova fonte de verdade.

Alguns governos liberal-democráticos, como os EUA, chegaram ao ponto de criar departamentos especiais dedicados ao “combate às fake news”, atuando, assim, como autênticos “Ministérios da Verdade” de orwelliana memória.

Mesmo no âmbito “independente”, porém, raramente nos deparamos com autêntica independência. Ao contrário, na verdade, as “agências de checagem de fatos” do Ocidente tendem a estar bem inseridas na constelação de ONGs, fundações e associações do complexo industrial sem fins lucrativos, o qual, por sua vez, é permeado pelo dinheiro das grandes corporações e pelos interesses dos governos liberal-democráticos. Mesmo os seus quadros de funcionários tendem a ser portas giratórias de figuras egressas do onguismo, do jornalismo mainstream e da burocracia estatal.

Ainda que o fenômeno seja de origem ocidental, o Brasil não está isento dele. Aqui também atuam as “agências de checagem de fatos” – a maioria delas engajadas nos mesmos tipos de operação de desinformação que os governos, jornais e ONGs que os tutelam.

Um exemplo típico é a Agência Lupa.

Criada em 2015, a sua fundadora Cristina Tardáguila, antes, trabalhou em outro aparato de desinformação disfarçado de “checagem de fatos”, o Preto no Branco, bancado pelo Grupo Globo (fundado e de propriedade da família Marinho, membros da qual são mencionados nos Arquivos Epstein). A Lupa foi financeiramente impulsionada por João Moreira Salles, da família de banqueiros bilionários Moreira Salles (do Itaú Unibanco).

Apesar de alegar independência em relação ao controle editorial da Revista Piauí, também controlada pelos Moreira Salles, a Agência Lupa segue sendo hospedada virtualmente pelos recursos da Piauí, onde Tardáguila atuou como jornalista de 2006 a 2011. Ela, ademais, também recebeu apoio do Instituto Serrapilheira, também dos Moreira Salles, durante a crise sanitária para atuar como mecanismo de imposição do consenso pandêmico naquilo que foi um dos maiores experimentos sociais da história humana.

Em paralelo, é relevante mencionar que o mesmo João Moreira Salles envolveu-se décadas atrás num escândalo após a revelação de que ele teria financiado “Marcinho VP”, um dos líderes da organização narcotraficante Comando Vermelho. Moreira Salles fez um acordo com a Justiça para não ser responsabilizado por este envolvimento.

Tardáguila também foi diretora adjunta da International Fact-Checking Network, uma rede de “combate às fake news”, absolutamente “independente”, porém financiada por instituições como a Open Society, a Fundação Bill & Melinda Gates, o Google, a Meta, a Rede Omidyar e o Departamento de Estado dos EUA, através do National Endowment for Democracy.

Hoje Tardáguila não dirige mais a Lupa, mas a sua “ficha” na página oficial do National Endowment for Democracy (notório financiador de revoluções coloridas e operações de desinformação ao redor do mundo) informa que ela é bastante ativa no Instituto Equis, que tem entre seus financiadores a organização abortista Planned Parenthood, e que tem como objetivo a realização de engenharia social contra as populações “latinas”.

A Lupa é, atualmente, dirigida por Natália Leal. Ao contrário da narrativa de “independência”, a realidade é que ela passou por vários veículos da mídia de massa brasileira, como a Poder360, o Diário Catarinense e a Zero Hora, além de também escrever para a Revista Piauí, do mesmo Moreira Salles. Leal é menos “internacionalmente conectada” que Tardáguila, mas ela foi “agraciada” com um prêmio do International Center for Journalists, uma associação de “jornalistas independentes” que, na verdade, é financiada também pelo National Endowment for Democracy, do Departamento de Estado dos EUA, pela Fundação Bill & Melinda Gates, pela Meta, pelo Google, pela CNN, pela Washington Post, pela USAID e pelo próprio Instituto Serrapilheira, também de Moreira Salles.

Muito claramente, é um pouco difícil levar a sério a noção de que a Lupa teria suficiente autonomia e independência para atuar como árbitra imparcial de todas as narrativas espalhadas em redes sociais quando ela própria e suas figuras-chave possuem essas conexões internacionais, inclusive num nível governamental.

Mas mesmo em um nível prático é difícil levar a sério o papel autoatribuído de enfrentamento às “fake news”. Retornando ao período pandêmico, por exemplo, chama atenção o tratamento diferenciado dado pela empresa à vacina russa Sputnik e à vacina da Pfizer. A primeira é tratada com desconfiança em matérias escritas em agosto e setembro de 2020, ambas redigidas por Jaqueline Sordi (que também está nos quadros do Instituto Serrapilheira e uma dúzia de outras ONGs financiadas pela Open Society), a segunda é defendida com unhas e dentes em dezenas de artigos de diversos autores, que vão desde a insistência de que as vacinas da Pfizer são 100% seguras para crianças, até a declaração de que Bill Gates jamais defendeu a redução da população mundial.

Sobre isso, aliás, é importante ressaltar que o Itaú coordena carteiras de investimentos que incluem a Pfizer, havendo, portanto, interesses empresariais que aproximam os Moreira Salles e a gigante farmacêutica.

Mas para além de desinformações sobre a Big Pharma, bem como sobre outros lugares ao redor do mundo, como a Venezuela, em relação à qual a Lupa afirma que Maria Corina Machado tem o apoio popular de 72% da população venezuelana (com base numa pesquisa feita por um instituto que nem mesmo é venezuelano, o ClearPath Strategies), a Lupa parece ter uma obsessão particular com a Rússia e, curiosamente, o alinhamento da Lupa com as narrativas dominantes na mídia ocidental é absoluto.

A Lupa defende, por exemplo, que o Massacre de Bucha foi praticado pela Rússia, usando como única fonte o New York Times. Em relação a Mariupol, ela insiste na narrativa do ataque russo à maternidade e a outros alvos civis, inclusive mencionando Mariana Vishegirskaya, que hoje mora em Moscou, já assumiu ter sido uma atriz paga numa encenação organizada pelo governo ucraniano e hoje trabalha no Comitê de Iniciativas Sociais da Fundação “Pátria”. Ela ainda nega a tentativa de genocídio do Donbass e a prática de tráfico de órgãos na Ucrânia.

Uma matéria escrita pela própria fundadora Cristina Tardáguila se apoia no Atlantic Council como fonte para acusar a Rússia de espalhar desinformação, uma das quais seria a de que a Ucrânia seria um Estado falido e subserviente à Europa – duas informações que qualquer analista geopolítico mediano confirmaria tranquilamente.

Objeto particular da obsessão da Lupa é a Global Fact-Checking Network – da qual, aliás, faço parte. Trata-se de uma das poucas organizações internacionais dedicadas à checagem de fatos de uma maneira independente em relação a amarras ideológicas, contando entre seus membros uma equipe que é, de certo, muito mais diversa e multifacetada que a típica “porta giratória” das agências de checagem de fatos do circuito atlântico, em que todos estudaram mais ou menos nos mesmos lugares, trabalharam na mídia de massa e foram, em algum momento, financiados ou beneficiários de bolsas da Open Society, da Fundação Bill & Melinda Gates e/ou do Departamento de Estado dos EUA.

O critério da Lupa para atacar a GFCN é…precisamente a obediência ou não às fontes da mídia de massa ocidental, em um raciocínio circular que não consegue ir além do argumento de autoridade.

Este caso específico ajuda a expor um pouco o funcionamento desses aparatos de desinformação típicos da guerra híbrida, os quais se travestem do manto da neutralidade jornalística para se engajar em guerra informacional em defesa do Ocidente liberal.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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