A ridícula farsa da história política de Jair Bolsonaro serve como um alerta para todos os outros políticos que estão surfando a maré do populismo.
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Bolsonaro está atrás das grades. A decisão por sua prisão preventiva foi justificada como a resposta adequada à possibilidade do ex-presidente tentar escapar de sua prisão domiciliar sob a cobertura da “vigília” que seu filho Flávio Bolsonaro organizava para a entrada da residência. Como Bolsonaro vive a 15 minutos do setor de embaixadas de Brasília, considerou-se que ele poderia tentar escapar e que se conseguisse entrar num carro e sair sob a cobertura da população presente, poderia se refugiar numa embaixada, provavelmente a dos EUA.
É necessário entender que a decisão de Alexandre de Moraes foi “um tiro no escuro”. Ela foi mais uma demonstração de poder para coroar a semana, após a revogação parcial das tarifas trumpistas – com isso, exibindo o fracasso do complô bolsonarista para tentar usar os EUA para salvar Jair Bolsonaro – do que qualquer outra coisa. Mas, de fato, quando Bolsonaro foi recolhido para a penitenciária, descobriu-se que ele havia tentado retirar a tornozeleira eletrônica usando uma solda.
Em alguma medida, é o término da história de Bolsonaro. Afinal, a sua saúde é frágil por causa das sequelas da facada recebida durante a campanha eleitoral de 2018. Ele é frequentemente hospitalizado e, sabe-se, é difícil cuidar da saúde em condições penitenciárias.
Um término amargo de certo. Em alguma medida, a essência da tragédia de Bolsonaro é que ele acreditou que seu caminho era uma epopeia, mas ela se revelou uma farsa com toques de comédia.
Quando nos pomos a analisar o Bolsonaro como fenômeno político mais do que como uma figura singular é necessário rejeitar as tentativas de lê-lo como parte de um fenômeno de “extrema-direita internacional”, termo mais valorativo que descritivo. O termo “populismo” é mais abrangente, científico e neutro, de modo que é nele que podemos tentar pensar o bolsonarismo.
O fenômeno do populismo político volta a ser debatido ao fim da primeira década do século XXI. Naquele período, começava a ficar óbvio que a emergência de partidos nacionalistas na Europa não era um fenômeno efêmero ou mesmo um surto, e que o voto nesses partidos não era “voto de protesto”. Nesse período, figuras como Jörg Haider, do FPÖ, Marine Le Pen, do FN e Geert Wilders, do PVV, iam tornando-se figuras importantes e não mais ignoráveis do debate político de seus países; e seus partidos, propriamente, iam consolidando posições como 3º ou 4º partido político mais popular.
Obviamente trata-se de um fenômeno complexo que não pode ser facilmente resumido em um ou dois parágrafos, mas pode-se esboçar uma introdução ao tema ressaltando o esgotamento da democracia liberal, de suas formas de resolução de conflitos e de suas proposições no campo da política, da cultura e da economia. O populismo é a reação vital dos setores marginalizados e abandonados pelo pós-liberalismo, com destaque para a classe média, o proletariado e os pequenos agricultores. No establishment, essas classes viam uma alternância artificial entre partidos de “centro-direita” e “centro-esquerda”, que simulavam inimizade enquanto, no poder, aplicavam o mesmo programa com poucas variações. Qual programa? Precarização laboral e deslocalização dos empregos, diluição das fronteiras, progressismo cultural, etc.
Pela própria natureza transversal do establishment, o populismo tende a assumir também um caráter transversal. Ainda que haja, nesse populismo, figuras mais libertárias, o padrão é a mistura entre propostas outrora circunscritas à esquerda – normalmente na economia – e propostas outrora circunscritas à direita – normalmente na cultura e na política. Mesmo onde se desvia um pouco dessa fórmula populista típica, primariamente antiliberal (ou iliberal), permanece em todas as expressões do populismo o ceticismo ou mesmo a hostilidade aberta às “regras do jogo” da democracia liberal.
O populismo busca no vínculo direto com o povo o mecanismo fundamental de sua governabilidade, e, não raro, até mesmo o conteúdo de suas políticas públicas – não sendo raro, por conseguinte, que entre os populistas sejam comuns os apelos à “democracia direta”.
À sua própria maneira, e considerado o contexto singular do Brasil, Bolsonaro representa uma expressão desse mesmo fenômeno. De um modo geral, a política brasileira vinha sendo monopolizada, desde o fim do regime militar, pelo PT, pelo PSDB e pelo PMDB, cada um deles representando uma pequena variação da hegemonia liberal.
Sob a tutela desses partidos do establishment liberal-democrático, o Brasil viu o colapso da segurança pública, a aceleração e radicalização da dissolução do tecido social pelo progressismo, a substituição do desenvolvimento pela multiplicação dos benefícios sociais, a percepção crescente de uma corrupção endêmica e a sensação de que os impostos eram pesados demais para a pouca contrapartida oferecida pela Sexta República.
Cada vez mais, uma parte considerável da população brasileira (os “perdedores da globalização”, os “deploráveis” descritos por Hillary Clinton), geralmente composta por pequenos empresários, caminhoneiros, taxistas, agricultores, e mesmo uma parte do proletariado, começaram a ver diferenças decrescentes entre os principais partidos que se alternavam no poder. Referências a uma “velha política” e à necessidade de uma “nova política” – mais conectada com as novas tecnologias, com as novas demandas sociais, etc., – tornaram-se lugares-comuns no discurso político brasileiro.
A formalização e judicialização do progressismo impulsionou, em resposta, a consolidação de um sentimento e práxis de “guerra cultural” conservadora, guiada pelos epígonos brasileiros de conservadores estadunidenses (outras correntes antiprogressistas têm tido pouco impacto no Brasil até agora).
Enquanto isso, a democratização da internet e das redes sociais foi minando o monopólio narrativo das mídias de massas tradicionais. Narrativas alternativas passaram a proliferar livremente, concorrendo com as “verdades oficiais” da superclasse mundialista expressas através dos telejornais “respeitáveis”.
Jair Bolsonaro foi, nisso tudo, o “homem errado na hora certa”.
“Homem errado” porque, em comparação com a maioria das outras ditas lideranças populistas internacionais – como Viktor Orban, Marine Le Pen, ou mesmo Donald Trump – é claramente o menos intelectualmente dotado. E foi também o que menos soube o que fazer na eventualidade de conseguir se apossar do poder.
4 anos de governo de Jair Bolsonaro não deixaram praticamente nenhum legado positivo. Nenhum. Contrariando o próprio discurso, Bolsonaro entregou a economia ao banqueiro de George Soros no Brasil, Paulo Guedes – responsável por desmontar a Petrobrás, vendendo e fechando refinarias estratégicas e vendendo a empresa nacional de comercialização de combustíveis, bem como por privatizar a Eletrobrás, principal empresa de geração e transmissão de energia elétrica.
No campo cultural, não houve qualquer iniciativa visando barrar a onda progressista. Ao contrário, Bolsonaro retirou dinheiro da Cultura, facilitando, portanto, o trabalho dos setores do Capital privado que apoiam o wokismo. Para piorar, seu governo aprovou a legislação mais misândrica na história do Brasil, permitindo que homens sejam presos por denúncias não comprovadas de “abuso sexual”.
Nenhuma outra demanda de sua própria base eleitoral foi atendida. Bolsonaro não endureceu o combate ao crime organizado, não fortaleceu o patriotismo ou o conservadorismo, absolutamente nada disso aconteceu. Ele nem mesmo conseguiu organizar um partido próprio, fracassando vergonhosamente nisso.
Onde Bolsonaro, de fato, se destacou foi no agitprop e no uso das redes sociais para mobilização permanente de seus apoiadores. De tempos em tempos, Bolsonaro convocava seus apoiadores para manifestações de rua – todas elas imensas – e nelas discursava contra o Judiciário, contra o Congresso, contra os “comunistas”, contra a China, etc. No caso específico das instituições brasileiras, com destaque para o Judiciário, Bolsonaro fazia ameaças constantes.
Como diz um ditado brasileiro, “cão que ladra não morde”.
As ameaças constantes às instituições foram recrudescendo um sentimento radicalmente antibolsonarista nelas. Nesse sentido, de certa forma, Bolsonaro criou inimigos desnecessariamente sem ter os meios ou a vontade de se livrar definitivamente deles. Um erro crasso.
Mas um erro compatível com a própria personalidade de Bolsonaro: coragem excessiva e imprudente na hora de discursa, e a mais abjeta covardia na hora de por em prática o seu próprio discurso.
E a esse deplorável traço de personalidade, soma-se a adesão de seus filhos a uma seita política aceleracionista – liderada pelo já defunto Olavo de Carvalho – que pregava precisamente uma versão neocon da doutrina trotskista da “revolução permanente” com o objetivo de derrubar a velha ordem “comunista” que supostamente estaria governando o Brasil através da destruição das instituições, todas elas impossíveis de reformar. O que por no lugar? Nada disso estava em questão. Eis o ápice do niilismo.
Um contato, que estava bem posicionado no núcleo do governo bolsonarista, me confidenciou que em um determinado momento, alguns baluartes do setor mais centrista do establishment brasileiro – autênticos dinossauros da política – chamaram Bolsonaro para uma “conversa”. A ideia era buscar um diálogo para uma colaboração que beneficiasse a todos. É óbvio que é parte dessa lógica a realização de obras que beneficiariam aliados e protegidos desses “dinossauros”. Bolsonaro não quis conversa. Preferia vender o país a estrangeiros do que para oligarquias locais.
O pagamento pelo serviço prestado aos EUA? Uma campanha virulenta gestada em Washington pela substituição de Bolsonaro por Lula, cuja ponta de lança foi a própria Victoria Nuland.
Diante desse mosaico, no mínimo insólito, de incompetências de todos os tipos, quem se surpreenderá com o fato de que a maior parte dos comandantes das forças armadas se recusaram a embarcar na aventura bolsonarista de tentar reverter o resultado das eleições por meio de protestos, greves e mobilização das massas. Poderíamos dizer que aqui começou o início do fim.
Não adianta atribuir toda a responsabilidade a supostas “fraudes eleitorais”. A realidade é que Bolsonaro liderou o maior movimento de massas em décadas no Brasil, e fracassou ao chegar ao poder. Simplesmente não sabia o que fazer com ele.
A partir de então, o bolsonarismo sonhou constantemente com uma “bala de prata”, a fé num milagre, numa solução “por passe de mágica”, no lugar de estratégia e tática. Primeiro, os bolsonaristas acreditaram que os militares os salvariam, depois que Elon Musk o faria, finalmente que Donald Trump os resgataria.
Mas Trump descobriu que, no caso brasileiro, mais vale simplesmente negociar com quem já está no poder e, com isso, garantir a influência dos EUA na região, do que antagonizar excessivamente o país empurrando-o na direção da China.
O que dizer, então, da campanha feita por Eduardo Bolsonaro, nos EUA, para que Trump impusesse sanções e tarifas contra o Brasil? De fato, de tanto esperar uma “bala de prata”, ela veio. Mas acertou o bolsonarismo no coração e foi disparada pela própria Família Bolsonaro. A medida foi rechaçada inclusive pelo eleitorado de Bolsonaro, ajudando a terminar de afundar a sua carreira política e acelerando a sua condenação judicial.
É possível que, tal como ocorreu com Lula, Bolsonaro tenha um retorno triunfante à política? É possível, mas as sequelas da facada recebida por Bolsonaro representam uma dificuldade para o futuro político de Bolsonaro. Ainda assim, o seu processo teve suficientes irregularidades para poder ser eventualmente anulado, quando o clima político for outro.
Não obstante, essa ridícula farsa da história política de Jair Bolsonaro serve como um alerta para todos os outros políticos que estão surfando a maré do populismo.
Ações importam mais que as palavras.


