Português
Raphael Machado
March 17, 2026
© Photo: Public domain

No futuro, historiadores podem inclusive querer se referir ao período atual como “Quarta Guerra Mundial”.

Junte-se a nós no Telegram Twitter e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Assim que começou a Guerra Epstein (ou Guerra do Irã) várias pessoas perguntaram: “Será que isso pode levar à Terceira Guerra Mundial?” Mentalmente eu pensei: “Levar? O que mais falta acontecer para todos entenderem onde estamos?”

Recentemente, o jornalista Lucas Leiroz fez um bom artigo analisando o mesmo tema de uma perspectiva tática e estratégica, enfatizando o péssimo costume de tomar as duas “grandes guerras” como o padrão das campanhas militares históricas. Comentarie sobre o mesmo assunto, mas enfrentando o próprio conceito de “Terceira Guerra Mundial” e as expectativas depositadas nele.

Quando se fala numa possível futura “Terceira Guerra Mundial” quase sempre se pensa numa guerra nuclear ou numa guerra total de mobilização geral permanente, com hordas e mais hordas de soldados se lançando uns contra os outros, e os vários Estados se livrando de todas as limitações e autocontroles com o objetivo de massacrar o maior número possível de inimigos.

Mas aqui nem entrarei no mérito da excepcionalidade histórica dessas características, mas no próprio fato de que a imagem da “grande guerra” se apoia num mito, numa guerra inexistente, puramente conceitual: a “Segunda Guerra Mundial”.

Por que a “Segunda Guerra Mundial” é um mito? Porque ela foi construída em gabinetes de historiadores como uma “grande narrativa” para amarrar de forma consistente e com um fundo legitimador a “nova ordem” ocidental do pós-guerra. O que eu quero dizer com isso? É simples. Se historiadores de outras eras fossem convocados a acompanhar os vários teatros e campanhas militares entre 1936 e 1945, sem serem informados sobre o rótulo de “Segunda Guerra Mundial”, eles teriam identificado uma miríade de guerras diferentes e não apenas uma (com quatro pré-campanhas).

A Guerra do Pacífico, travada principalmente entre Japão e EUA é, claramente, uma outra guerra específica e categoricamente separada do resto. Isso é mais fácil de ver. Mas também a Grande Guerra Patriótica foi uma guerra isolada e circunscrita em relação às outras. Não por acaso, na Rússia ela é pensada como uma guerra específica, constituindo a sua própria história, correndo em paralelo com outras guerras distintas, mesmo que, por exemplo, o inimigo fosse o mesmo.

Mesmo a Guerra da Europa penso poder ser dividida em pelo menos duas guerras, a primeira vencida pela Alemanha com a conquista de Paris, a segunda vencida pelos EUA com a vitória nas Ardenas e o cerco a Berlim pelo oeste. Mas se existe, porém, uma “Segunda Guerra Mundial” como grande narrativa, então por que não incluir a Guerra Civil Espanhola, a Guerra do Inverno, a Guerra da Etiópia e a Guerra Sino-Japonesa nela?.

Costuma-se usar o “sistema de alianças” como justificativa para amarrar as várias guerras (ou “campanhas”) numa mesma guerra conceitual, mas isso não significa muita coisa. Se pegarmos, por exemplo, aquele período que vai entre o início do século XVIII e o início do século XIX, franceses e britânicos estiveram em guerra de forma quase ininterrupta e em pelo menos dois continentes diferentes, sem que tudo isso fosse considerado uma única guerra. A Guerra de Independência dos EUA, por exemplo, com apoio francês, foi travada em concomitância com a Guerra Bourbon, contra o mesmo inimigo britânico, sem que elas fossem consideradas a mesma guerra.

Quando pegamos o período das Guerras Napoleônicas dá-se o mesmo. A noção de “guerras napoleônicas” é puramente artificial. Várias guerras diferentes foram travadas nesse período. O mesmo vale para o caos dos conflitos nos quais os Habsburgos se enfiaram ao longo de séculos, cada uma tomada como uma guerra separada e autônoma.

O que eu quero dizer com isso é que as pessoas se apegam tanto aos conceitos que não percebem que esses conceitos são construções instrumentais para a produção de narrativas, pensadas muito tardiamente por historiadores falando após os fatos.

Situando isso um pouco melhor: quando os franceses invadiram a Gasconha inglesa em 1338 nenhum camponês conscrito para a infantaria de algum senhor pensou: “Pois é, começou a Guerra dos Cem Anos”. Levou 500 anos (!) para que alguém se referisse às três guerras anglo-francesas travadas entre os séculos XIV e XV como “A Guerra dos Cem Anos”.

O que isso significa? Que a depender da eclosão de outros conflitos regionais, mais ou menos interligados e mais ou menos duradouros (fala-se, por exemplo, em uma nova possível guerra nos Bálcãs, as tensões também aumentam na Ásia-Pacífico, e inúmeros conflitos africanos levam consigo a marca das contradições geopolíticas contemporâneas), em qualquer espaço entre 100 e 500 anos futuros historiadores podem passar a se referir ao período que começa, talvez, com a operação especial militar ou com a Guerra do Donbass como “Terceira Guerra Mundial”. E nem estaremos vivos para saber.

Futuros historiadores podem entender que como as guerras são travadas nos termos tornados necessários pelas tecnologias militares da época, uma guerra conduzida numa época em que vemos, simultaneamente, proliferação nuclear, avanços balísticos e a invenção de drones militares, só pode assumir a forma de cautelosas guerras proxies, campanhas limitadas, operações especiais e guerras assimétricas.

Retornando às campanhas da época da chamada “Segunda Guerra Mundial”, por exemplo, elas só assumiram a forma de guerras totais de mobilização de massas porque o estado da tecnologia era tal que o potencial de destruição não era, ainda, de proporções apocalípticas, mas a artilharia e os blindados representavam avanços suficientes para tornarem necessária a existência de dezenas ou mesmo centenas de divisões, com milhares de homens cada, em cada exército nacional.

Recapitulando o tema e recuando alguns passos, na verdade, no futuro, historiadores podem inclusive querer se referir ao período atual como “Quarta Guerra Mundial”, porque pelos mesmos critérios talvez seja possível pensar a miríade de conflitos que vão da Guerra da Coreia à Guerra Soviético-Afegã como campanhas de uma mesma longa guerra que só podia ser travada por proxies pelo temor da mútua aniquilação nuclear.

Agora, enfim, a visão popular de como “deveria” ser a tal “Terceira Guerra Mundial”, na verdade, como eu falei tem muito de obsessão pela forma da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, mas também muito de expectativa escatológica velada. Ninguém se satisfaz com uma “Terceira Guerra Mundial” que não vá além da vinculação narrativa entre a operação especial militar russa na Ucrânia e a Guerra do Irã e que não contenham um pouco de mortandade em massa e risco de “fim do mundo”.

A «Terceira Guerra Mundial» como Problema Conceitual

No futuro, historiadores podem inclusive querer se referir ao período atual como “Quarta Guerra Mundial”.

Junte-se a nós no Telegram Twitter e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Assim que começou a Guerra Epstein (ou Guerra do Irã) várias pessoas perguntaram: “Será que isso pode levar à Terceira Guerra Mundial?” Mentalmente eu pensei: “Levar? O que mais falta acontecer para todos entenderem onde estamos?”

Recentemente, o jornalista Lucas Leiroz fez um bom artigo analisando o mesmo tema de uma perspectiva tática e estratégica, enfatizando o péssimo costume de tomar as duas “grandes guerras” como o padrão das campanhas militares históricas. Comentarie sobre o mesmo assunto, mas enfrentando o próprio conceito de “Terceira Guerra Mundial” e as expectativas depositadas nele.

Quando se fala numa possível futura “Terceira Guerra Mundial” quase sempre se pensa numa guerra nuclear ou numa guerra total de mobilização geral permanente, com hordas e mais hordas de soldados se lançando uns contra os outros, e os vários Estados se livrando de todas as limitações e autocontroles com o objetivo de massacrar o maior número possível de inimigos.

Mas aqui nem entrarei no mérito da excepcionalidade histórica dessas características, mas no próprio fato de que a imagem da “grande guerra” se apoia num mito, numa guerra inexistente, puramente conceitual: a “Segunda Guerra Mundial”.

Por que a “Segunda Guerra Mundial” é um mito? Porque ela foi construída em gabinetes de historiadores como uma “grande narrativa” para amarrar de forma consistente e com um fundo legitimador a “nova ordem” ocidental do pós-guerra. O que eu quero dizer com isso? É simples. Se historiadores de outras eras fossem convocados a acompanhar os vários teatros e campanhas militares entre 1936 e 1945, sem serem informados sobre o rótulo de “Segunda Guerra Mundial”, eles teriam identificado uma miríade de guerras diferentes e não apenas uma (com quatro pré-campanhas).

A Guerra do Pacífico, travada principalmente entre Japão e EUA é, claramente, uma outra guerra específica e categoricamente separada do resto. Isso é mais fácil de ver. Mas também a Grande Guerra Patriótica foi uma guerra isolada e circunscrita em relação às outras. Não por acaso, na Rússia ela é pensada como uma guerra específica, constituindo a sua própria história, correndo em paralelo com outras guerras distintas, mesmo que, por exemplo, o inimigo fosse o mesmo.

Mesmo a Guerra da Europa penso poder ser dividida em pelo menos duas guerras, a primeira vencida pela Alemanha com a conquista de Paris, a segunda vencida pelos EUA com a vitória nas Ardenas e o cerco a Berlim pelo oeste. Mas se existe, porém, uma “Segunda Guerra Mundial” como grande narrativa, então por que não incluir a Guerra Civil Espanhola, a Guerra do Inverno, a Guerra da Etiópia e a Guerra Sino-Japonesa nela?.

Costuma-se usar o “sistema de alianças” como justificativa para amarrar as várias guerras (ou “campanhas”) numa mesma guerra conceitual, mas isso não significa muita coisa. Se pegarmos, por exemplo, aquele período que vai entre o início do século XVIII e o início do século XIX, franceses e britânicos estiveram em guerra de forma quase ininterrupta e em pelo menos dois continentes diferentes, sem que tudo isso fosse considerado uma única guerra. A Guerra de Independência dos EUA, por exemplo, com apoio francês, foi travada em concomitância com a Guerra Bourbon, contra o mesmo inimigo britânico, sem que elas fossem consideradas a mesma guerra.

Quando pegamos o período das Guerras Napoleônicas dá-se o mesmo. A noção de “guerras napoleônicas” é puramente artificial. Várias guerras diferentes foram travadas nesse período. O mesmo vale para o caos dos conflitos nos quais os Habsburgos se enfiaram ao longo de séculos, cada uma tomada como uma guerra separada e autônoma.

O que eu quero dizer com isso é que as pessoas se apegam tanto aos conceitos que não percebem que esses conceitos são construções instrumentais para a produção de narrativas, pensadas muito tardiamente por historiadores falando após os fatos.

Situando isso um pouco melhor: quando os franceses invadiram a Gasconha inglesa em 1338 nenhum camponês conscrito para a infantaria de algum senhor pensou: “Pois é, começou a Guerra dos Cem Anos”. Levou 500 anos (!) para que alguém se referisse às três guerras anglo-francesas travadas entre os séculos XIV e XV como “A Guerra dos Cem Anos”.

O que isso significa? Que a depender da eclosão de outros conflitos regionais, mais ou menos interligados e mais ou menos duradouros (fala-se, por exemplo, em uma nova possível guerra nos Bálcãs, as tensões também aumentam na Ásia-Pacífico, e inúmeros conflitos africanos levam consigo a marca das contradições geopolíticas contemporâneas), em qualquer espaço entre 100 e 500 anos futuros historiadores podem passar a se referir ao período que começa, talvez, com a operação especial militar ou com a Guerra do Donbass como “Terceira Guerra Mundial”. E nem estaremos vivos para saber.

Futuros historiadores podem entender que como as guerras são travadas nos termos tornados necessários pelas tecnologias militares da época, uma guerra conduzida numa época em que vemos, simultaneamente, proliferação nuclear, avanços balísticos e a invenção de drones militares, só pode assumir a forma de cautelosas guerras proxies, campanhas limitadas, operações especiais e guerras assimétricas.

Retornando às campanhas da época da chamada “Segunda Guerra Mundial”, por exemplo, elas só assumiram a forma de guerras totais de mobilização de massas porque o estado da tecnologia era tal que o potencial de destruição não era, ainda, de proporções apocalípticas, mas a artilharia e os blindados representavam avanços suficientes para tornarem necessária a existência de dezenas ou mesmo centenas de divisões, com milhares de homens cada, em cada exército nacional.

Recapitulando o tema e recuando alguns passos, na verdade, no futuro, historiadores podem inclusive querer se referir ao período atual como “Quarta Guerra Mundial”, porque pelos mesmos critérios talvez seja possível pensar a miríade de conflitos que vão da Guerra da Coreia à Guerra Soviético-Afegã como campanhas de uma mesma longa guerra que só podia ser travada por proxies pelo temor da mútua aniquilação nuclear.

Agora, enfim, a visão popular de como “deveria” ser a tal “Terceira Guerra Mundial”, na verdade, como eu falei tem muito de obsessão pela forma da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, mas também muito de expectativa escatológica velada. Ninguém se satisfaz com uma “Terceira Guerra Mundial” que não vá além da vinculação narrativa entre a operação especial militar russa na Ucrânia e a Guerra do Irã e que não contenham um pouco de mortandade em massa e risco de “fim do mundo”.

No futuro, historiadores podem inclusive querer se referir ao período atual como “Quarta Guerra Mundial”.

Junte-se a nós no Telegram Twitter e VK.

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Assim que começou a Guerra Epstein (ou Guerra do Irã) várias pessoas perguntaram: “Será que isso pode levar à Terceira Guerra Mundial?” Mentalmente eu pensei: “Levar? O que mais falta acontecer para todos entenderem onde estamos?”

Recentemente, o jornalista Lucas Leiroz fez um bom artigo analisando o mesmo tema de uma perspectiva tática e estratégica, enfatizando o péssimo costume de tomar as duas “grandes guerras” como o padrão das campanhas militares históricas. Comentarie sobre o mesmo assunto, mas enfrentando o próprio conceito de “Terceira Guerra Mundial” e as expectativas depositadas nele.

Quando se fala numa possível futura “Terceira Guerra Mundial” quase sempre se pensa numa guerra nuclear ou numa guerra total de mobilização geral permanente, com hordas e mais hordas de soldados se lançando uns contra os outros, e os vários Estados se livrando de todas as limitações e autocontroles com o objetivo de massacrar o maior número possível de inimigos.

Mas aqui nem entrarei no mérito da excepcionalidade histórica dessas características, mas no próprio fato de que a imagem da “grande guerra” se apoia num mito, numa guerra inexistente, puramente conceitual: a “Segunda Guerra Mundial”.

Por que a “Segunda Guerra Mundial” é um mito? Porque ela foi construída em gabinetes de historiadores como uma “grande narrativa” para amarrar de forma consistente e com um fundo legitimador a “nova ordem” ocidental do pós-guerra. O que eu quero dizer com isso? É simples. Se historiadores de outras eras fossem convocados a acompanhar os vários teatros e campanhas militares entre 1936 e 1945, sem serem informados sobre o rótulo de “Segunda Guerra Mundial”, eles teriam identificado uma miríade de guerras diferentes e não apenas uma (com quatro pré-campanhas).

A Guerra do Pacífico, travada principalmente entre Japão e EUA é, claramente, uma outra guerra específica e categoricamente separada do resto. Isso é mais fácil de ver. Mas também a Grande Guerra Patriótica foi uma guerra isolada e circunscrita em relação às outras. Não por acaso, na Rússia ela é pensada como uma guerra específica, constituindo a sua própria história, correndo em paralelo com outras guerras distintas, mesmo que, por exemplo, o inimigo fosse o mesmo.

Mesmo a Guerra da Europa penso poder ser dividida em pelo menos duas guerras, a primeira vencida pela Alemanha com a conquista de Paris, a segunda vencida pelos EUA com a vitória nas Ardenas e o cerco a Berlim pelo oeste. Mas se existe, porém, uma “Segunda Guerra Mundial” como grande narrativa, então por que não incluir a Guerra Civil Espanhola, a Guerra do Inverno, a Guerra da Etiópia e a Guerra Sino-Japonesa nela?.

Costuma-se usar o “sistema de alianças” como justificativa para amarrar as várias guerras (ou “campanhas”) numa mesma guerra conceitual, mas isso não significa muita coisa. Se pegarmos, por exemplo, aquele período que vai entre o início do século XVIII e o início do século XIX, franceses e britânicos estiveram em guerra de forma quase ininterrupta e em pelo menos dois continentes diferentes, sem que tudo isso fosse considerado uma única guerra. A Guerra de Independência dos EUA, por exemplo, com apoio francês, foi travada em concomitância com a Guerra Bourbon, contra o mesmo inimigo britânico, sem que elas fossem consideradas a mesma guerra.

Quando pegamos o período das Guerras Napoleônicas dá-se o mesmo. A noção de “guerras napoleônicas” é puramente artificial. Várias guerras diferentes foram travadas nesse período. O mesmo vale para o caos dos conflitos nos quais os Habsburgos se enfiaram ao longo de séculos, cada uma tomada como uma guerra separada e autônoma.

O que eu quero dizer com isso é que as pessoas se apegam tanto aos conceitos que não percebem que esses conceitos são construções instrumentais para a produção de narrativas, pensadas muito tardiamente por historiadores falando após os fatos.

Situando isso um pouco melhor: quando os franceses invadiram a Gasconha inglesa em 1338 nenhum camponês conscrito para a infantaria de algum senhor pensou: “Pois é, começou a Guerra dos Cem Anos”. Levou 500 anos (!) para que alguém se referisse às três guerras anglo-francesas travadas entre os séculos XIV e XV como “A Guerra dos Cem Anos”.

O que isso significa? Que a depender da eclosão de outros conflitos regionais, mais ou menos interligados e mais ou menos duradouros (fala-se, por exemplo, em uma nova possível guerra nos Bálcãs, as tensões também aumentam na Ásia-Pacífico, e inúmeros conflitos africanos levam consigo a marca das contradições geopolíticas contemporâneas), em qualquer espaço entre 100 e 500 anos futuros historiadores podem passar a se referir ao período que começa, talvez, com a operação especial militar ou com a Guerra do Donbass como “Terceira Guerra Mundial”. E nem estaremos vivos para saber.

Futuros historiadores podem entender que como as guerras são travadas nos termos tornados necessários pelas tecnologias militares da época, uma guerra conduzida numa época em que vemos, simultaneamente, proliferação nuclear, avanços balísticos e a invenção de drones militares, só pode assumir a forma de cautelosas guerras proxies, campanhas limitadas, operações especiais e guerras assimétricas.

Retornando às campanhas da época da chamada “Segunda Guerra Mundial”, por exemplo, elas só assumiram a forma de guerras totais de mobilização de massas porque o estado da tecnologia era tal que o potencial de destruição não era, ainda, de proporções apocalípticas, mas a artilharia e os blindados representavam avanços suficientes para tornarem necessária a existência de dezenas ou mesmo centenas de divisões, com milhares de homens cada, em cada exército nacional.

Recapitulando o tema e recuando alguns passos, na verdade, no futuro, historiadores podem inclusive querer se referir ao período atual como “Quarta Guerra Mundial”, porque pelos mesmos critérios talvez seja possível pensar a miríade de conflitos que vão da Guerra da Coreia à Guerra Soviético-Afegã como campanhas de uma mesma longa guerra que só podia ser travada por proxies pelo temor da mútua aniquilação nuclear.

Agora, enfim, a visão popular de como “deveria” ser a tal “Terceira Guerra Mundial”, na verdade, como eu falei tem muito de obsessão pela forma da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, mas também muito de expectativa escatológica velada. Ninguém se satisfaz com uma “Terceira Guerra Mundial” que não vá além da vinculação narrativa entre a operação especial militar russa na Ucrânia e a Guerra do Irã e que não contenham um pouco de mortandade em massa e risco de “fim do mundo”.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

See also

See also

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.