Nos últimos meses, o Brasil vem sendo agitado por uma questão que é pertinente para todo o mundo: a possibilidade de os paralíticos com lesão medular total recuperarem totalmente os movimentos.
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Nos últimos meses, o Brasil vem sendo agitado por uma questão que é pertinente para todo o mundo: a possibilidade de os paralíticos com lesão medular total (e só eles) recuperarem totalmente os movimentos, caso recebam uma certa injeção na medula até 3 dias após o acidente e façam fisioterapia.
O Brasil começou a prestar atenção ao assunto quando, em setembro de 2025, a imprensa publicou a incrível história de Bruno Drummond: em 2018 ele quebrou o pescoço num acidente de trânsito, ficou tetraplégico e aceitou ser cobaia de uma pesquisa piloto. Em menos de 24 horas, ele recebeu a injeção na medula e hoje consegue caminhar. Ele saiu direto da classificação A (sem movimentos) para a D (força e sensibilidade para quase todos os movimentos), fato sem precedentes na literatura médica. Esse teste piloto tinha seis pacientes. Os cinco pacientes restantes pularam do A para o C (com parte da força e mobilidade). A pesquisa era desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro liderados pela Prof. Tatiana Sampaio em parceria com o laboratório brasileiro Cristália.
O Brasil ficou empolgadíssimo, e os internautas repetiam que ela merece o Nobel. Diante da novidade, as famílias dos pacientes, desesperadas, começaram a entrar na justiça para pedir o uso compassivo do medicamento em teste. E aí apareceu mais uma história muito importante: um certo Diogo Brollo trabalhava instalando janelas num prédio quando caiu, sofreu uma lesão total da medula e sua irmã conseguiu uma ordem judicial para que ele recebesse o tratamento por uso compassivo. Em apenas quinze dias, ele conseguiu mexer o pé e a perna. Até 22 de fevereiro, havia 55 pedidos judiciais, dos quais 30 foram aceitos.
Os pacientes que tomam o medicamento por uso compassivo não contam como caso clínico. Assim, fica a questão: se porventura a corrida judicial continuar, e o tratamento continuar tendo resultados favoráveis, como seguir os trâmites da pesquisa?
E aí temos a polêmica que incendiou o Twitter brasileiro. Um economista neoliberal que escreve para o mais tradicional jornal liberal de direita do país tuitou um corte de 28 segundos da entrevista da Prof. Tatiana Sampaio ao Roda Viva no qual ela dizia: “Vamos supor uma hipótese: que essas 30 pessoas que receberam por uso compassivo, todos voltem a andar. Você teria coragem de fazer um estudo clínico controlado?”, ao que uma entrevistadora responde, impassível, que é preciso seguir todos os trâmites e passar por todas as fases. Junto com o vídeo, o economista postou o comentário irônico “Agora o Nobel vem”. Ato contínuo, os mesmos atores que defendiam as maravilhas da “vacina” da Pfizer passaram a tratar a Prof. Tatiana Sampaio como uma charlatã ou uma simplória que não conhece a ciência.
Na mesma entrevista, porém, Tatiana Sampaio explicava os problemas de se fazer teste clínico nesse caso em particular, bem como em geral. Comecemos com o particular: cada vez que um paciente ganha na justiça o direito de fazer o teste, é preciso que o laboratório Cristália envie um neurocirurgião até o local para fazer o procedimento invasivo de injetar polilaminina na medula espinhal. No teste duplo-cego, cuja finalidade é eliminar o efeito placebo, dá-se o medicamento para uma parte de cobaias e placebo para outra, a fim de comparar os resultados. Ora, é antiético submeter um paciente a um procedimento invasivo para enfiar um líquido na melhor das hipóteses inócuo em sua medula. Além disso, mesmo que fosse um procedimento simples e fácil de substituir por um placebo, o tempo é importante para a eficácia do tratamento, logo, aquele que recebesse o placebo estaria fadado à cadeira de rodas. (A isto acrescentemos: se o paralítico pode conseguir o medicamento por via judicial, por que aceitaria ser cobaia num duplo-cego?)
Diante do fato de que é difícil seguir os trâmites existentes de maneira ética, a Prof. Tatiana Sampaio diz que é preciso pensar em novos modelos. E essa não é a única questão burocrática que clama por reflexão.
A questão das patentes e do custo dos testes clínicos
Outra notícia que chamou a atenção é que a cientista teve que pagar do próprio bolso pela patente. Há muito tempo a UFRJ tem sérios problemas administrativos que nenhuma autoridade quer resolver. Vou me limitar a observar que ela tem um orçamento bilionário mas, ainda assim, deixou o Museu Nacional pegar fogo devido à precariedade da rede elétrica – e o reitor ainda culpou os bombeiros. As múmias egípcias do imperador viraram pó; coleções de fósseis se perderam. Ao menos o Meteorito do Bendegó não pôde ser destruído. Assim, a UFRJ não iria pagar pela renovação das patentes brasileira, estadunidense e europeia, e perguntou à professora se ela mesma não queria pagar para não perder. Ela pagou somente a brasileira e as demais se perderam. Depois ela encontrou o Cristália.
Na entrevista ao Roda Viva, ela explicou que isso foi um mal que veio para bem, pois se a patente dos Estados Unidos ainda valesse, provavelmente teria sido comprada por um laboratório do primeiro mundo, o qual dispensaria os pesquisadores brasileiros, faria uma bateria de testes com toda rapidez e venderia o produto por uma fortuna. De posse da patente brasileira, ela e o laboratório esperam que no futuro o medicamento seja vendido para o SUS (o NHS brasileiro). Somos convidados a pensar, então, quantos países mundo afora não financiam cientistas nacionais para que uma grande empresa compre a patente de suas pesquisas em estágio inicial, termine de desenvolvê-las e ponha um preço absurdo a ser pago por esses mesmos países quando vão comprar o medicamento. O estrago que Reagan fez ao permitir que a verba pública de pesquisa virasse patente privada foi globalizado.
De resto, vale destacar o custo e a razoabilidade dos testes clínicos, que foi justamente o que levou os pets da Pfizer a atacarem a cientista após a entrevista no programa Roda Viva. Encerro citando a Prof.ª Tatiana Sampaio: “A patente é muito importante quando você vai vender alguma coisa. Imagina que você tem uma proposta de um novo medicamento e aí você quer fazer um estudo clínico para poder testar se ele funciona mesmo. Para fazer esse estudo clínico, você precisa de um orçamento muito grande, porque os estudos clínicos são muito caros. E aí você precisa que alguém se interesse por fazer aquele estudo clínico. E esse alguém, via de regra, vai se interessar por fazer esse estudo se ele tiver a perspectiva de um lucro muito grande com a exploração comercial daquilo. Por isso ele precisa da patente para garantir que só ele possa ganhar dinheiro com aquilo. Toda essa dinâmica é como a roda gira. Mas eu tenho que te dizer que não acho que seja uma situação ideal, na minha opinião. Eu acho que isso acaba fazendo uma grande reserva de mercado para grandes corporações.”
O entrevistador pergunta se então o ideal seria o Estado bancar, ao que ela responde: “Não sei, o ideal é uma coisa nova que a gente tem que fazer. A gente não precisa ter medo disso. Tem que construir uma coisa nova, porque esse paradigma de: você faz a patente, e aí você vende a patente para alguém que tem muito dinheiro e que vai botar muito dinheiro, e que vai… A gente tem que se perguntar isso: no afã de proteger as pessoas de serem usadas como cobaia, será que a gente não tá também fazendo uma reserva de mercado para um ente que tem uma expectativa muito grande de lucro?”


