A forma mais profunda de controle político é o controle da verdade: as pessoas podem querer ignorar a política, mas não podem querer ignorar a verdade sobre os fatos.
Junte-se a nós no Telegram
, Twitter
e VK
.
Escreva para nós: info@strategic-culture.su
Os Arquivos Epstein com certeza chocaram sobretudo por causa dos políticos, mas isso não deve permitir que nos esqueçamos dos acadêmicos. Um deles, Noam Chomsky, ganhou muita atenção dos ativistas pró Palestina, já que Chomsky é o papa jurássico dos judeus antissionistas e o casal judeu Epstein-Maxwell é amiúde apontado como um ativo do Mossad. Seria, então, Chomsky uma oposição controlada?
Ao que parece, é isso mesmo. O jornalista Max Blumenthal, que aliás também é judeu e antissionista, apontou: “Mais ou menos ao mesmo tempo em que esculachava o movimento BDS, liderado por palestinos, Noam Chomsky se encontrava em privado com Ehud Barak, um dos piores criminosos de guerra da História de Israel. Os encontros foram arranjados por Epstein.” O movimento BDS pede “boicote, desinvestimento e sanção” contra Israel, e é inspirado nas medidas que ajudaram a acabar com o regime de Apartheid da África do Sul. Ehud Barak foi primeiro ministro de Israel entre 1999 e 2001. Max Blumenthal descobriu o encontro de Chomsky Barak ocorrido em 2015 nos Arquivos Epstein.
O caso de Chomsky é um caso político, e repete o quadro político geral dos Arquivos Epstein: assim como as discordâncias entre democratas e republicanos são de fachada, encenadas para manter a plebe dividida e mobilizada, o sionismo tem no seu camarim o mais longevo ator que representa, diante de esquerdistas apaixonados, o papel de intelectual radical, comunista, esquerdista e antissionista. Isso acaba tendo impacto, pois um judeu antissionista sério como Norman Finkelstein cresceu admirando Chomsky, e acabou aderindo às suas críticas ao BDS.
O leitor talvez faça aos seus botões a pergunta politicamente correra: “Mas como ela sabe que Finkelstein é sério, se ele é mais um judeu comunista e, além disso, fã de Chomsky?” Porque ele pagou um preço alto pelo seu antissionismo e tem uma trajetória acadêmica muito diferente da de Chomsky. Chomsky é um deus vivo: uma estrela acadêmica que brilha por adotar as posições radicais da vez e, ao mesmo tempo, o pai da teoria da Gramática Universal, o que faz dele, em matéria de autoridade acadêmica, uma espécie de Einstein vivo da linguística. Aos brasileiros, eu diria que Chomsky é badalado no mundo como Marilena Chauí é aqui (só aqui), mas tem uma teoria não-relacionada à lacração política que é obrigatória para a Linguística.
Bom, Finkelstein não é nenhum pai de teoria, mas é “apenas” o maior especialista em Gaza, o que deveria ser mais do que o suficiente para ele conseguir uma tenure, estabilidade. Ele enterrou a sua carreira acadêmica quando, em 2003, acusou Alan Dershowitz de ser um plagiário que escolheu um trabalho desacreditado para copiar. O recém-publicado The Case for Israel (algo como “Em defesa de Israel”), de Dershowitz, seria uma cópia da obra From Time Immemorial (1984), da jornalista Joan Peters.
Esse Dershowitz, que era acusado de estupro por Virginia Giuffre (uma vítima de Epstein corajosa), tinha entre os seus clientes ninguém menos que Jeffrey Epstein (2008) e Donald Trump (2020). Em 2024, ele também se preparava para defender Israel no Tribunal de Haia.
Ele não é nenhum acadêmico especialista em Oriente Médio; é um professor de direito de Harvard. O livro criticado por Finkelstein era de natureza propagandística e seu autor era um notório sionista. No entanto, era um homem com grandes conexões políticas, a tal ponto que chegou a mover uma campanha para que Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia, impedisse a publicação do livro de Finkelstein (Beyond Chutzpah, algo como “Mais que Arrogância”, sendo chutzpah uma palavra hebraica similar a hybris, grega) que era uma réplica ao seu. O livro saiu, mas Finkelstein nunca conseguiu ter uma tenure, a estabilidade. No Brasil, é como se ele nunca conseguisse passar num concurso e tivesse de dar aulas numa uniesquina que paga mal, mesmo sendo uma grande referência internacional.
Em meio ao cancelamento, Chomsky deu apoio moral a Finkelstein, o que bastou para ganhar a sua gratidão e sua confiança – mas não para garantir-lhe o emprego merecido. Não é estranho que Chomsky tenha conseguido ir tão longe na carreira acadêmica sendo tão “radical”? Se gente como Dershowitz consegue interferir para o mal de alguém, será que não consegue interferir do mesmo modo para o bem?
Por certo, Finkelstein obteve o reconhecimento acadêmico por meio da citação do seu trabalho. Não obstante, Gaza é um assunto político e objetivo, e seria difícil negligenciar o trabalho de alguém que foi para lá estudar in loco – o que valeu a Finkelstein depois a proibição de ingressar em Israel (e, por conseguinte, em Gaza), coisa que jamais aconteceu ao “radical” Chomsky. Finkelstein certamente teria uma vida intelectual bem mais difícil se, com sua atuação política, se dedicasse, na academia, a um assunto tão especulativo como a relação entre a natureza humana e a linguagem.
A coisa se complica ainda mais quando lembramos do outro acadêmico importante, que apareceu numa das mais sinistras gravações nos Arquivos Epstein: o psicólogo de Harvard Steven Pinker (também judeu, diga-se) aparece sorrindo ao lado de Epstein no avião conhecido como “Lolita Express”, e uma voz infantil pergunta “aonde você está nos levando”? Pinker estava num avião com uma inequívoca vítima de pedofilia? Essa gravação é novidade; as relações entre Pinker e Epstein, não. Epstein era um “filantropo” e dava dinheiro às pesquisas de Pinker em Harvard. Quando Epstein começou a ter problemas com a justiça, Alan Dershowitz, amigo de ambos, pediu ajuda ao famoso cientista de Harvard para a defesa, e ele de fato colaborou.
É interessante que esses dois casos de cientistas intimamente ligados ao líder de uma rede de pedofilia se dediquem ao estudo da natureza humana. E é muito improvável que os amigos de Epstein tenham liberdade para defender qualquer concepção do ser humano, mantendo o apoio recebido.
A forma mais profunda de controle político nem é o controle dos partidos e atores políticos. É, em vez disso, o controle da verdade: as pessoas podem querer ignorar a política, mas não podem querer ignorar a verdade sobre os fatos. Essa rede pedo-sionista está longe de ser boba, e escolheu as humanidades.


