Português
Eduardo Vasco
March 17, 2024
© Photo: Public domain

Nos últimos meses tem ocorrido uma sequência de acontecimentos muito estranha, não tanto pelos ocorridos em si, mas pela situação política nacional e internacional em que estão inseridos.

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Crime, violência e tráfico de drogas não são novidade para nenhum latino-americano – com a exceção honrosa dos cubanos. Mas nos últimos meses tem ocorrido uma sequência de acontecimentos muito estranha, não tanto pelos ocorridos em si, mas pela situação política nacional e internacional em que estão inseridos.

Como observei no final de janeiro, a onda de violência está conectada com a ascensão de governos de direita ou extrema-direita alinhados com os Estados Unidos. A primeira evidência disso foi a eleição de Daniel Noboa no Equador. Por coincidência ou não, ela foi acompanhada por um levantamento criminoso a nível nacional que serviu de justificativa perfeita para Noboa aplicar uma política de repressão e fechamento do regime, entregando o poder aos militares e permitindo a chegada de novos agentes dos EUA, incluindo militares e membros do FBI, para supostamente reforçar o combate ao narcotráfico.

Ele declarou: “precisamos de cooperação internacional. Estou feliz em aceitar a cooperação dos EUA. Precisamos de equipamento, de armas, de informações, e penso que este é um problema global.” Segundo Noboa, a situação é de “conflito armado” contra o “terrorismo” e isso não seria uma exclusividade do Equador, mas um problema que “transcende as fronteiras nacionais”.

Por sua vez, a porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Adrienne Watson, disse: “aumentamos nosso apoio às forças equatorianas em matéria de aplicação da lei e da defesa”, enquanto “advogados do Departamento de Justiça, assim como agentes do FBI e da Agência Antidrogas [DEA], continuam apoiando as investigações do Equador sobre a recente violência política e criminosa”.

Em praticamente um mês de governo, Noboa aprofundou vertiginosamente a dependência do Equador em relação aos Estados Unidos, e, em meio ao genocídio em Gaza, também elevou o nível de relações com Israel. O presidente equatoriano chegou a ameaçar seriamente de entregar aos EUA os armamentos comprados da Rússia, o que só não ocorreu porque Moscou cortaria as importações de banana de Quito. De qualquer forma, Noboa demonstrou claramente sua disposição em se submeter integralmente aos desígnios de Washington.

O governo equatoriano afirma que o país vive um estado de “grave comoção interna”, o que lembra o tom alarmante empregado por Javier Milei desde que tomou o controle do governo na Argentina. O presidente argentino vem ameaçando a chegada da “pior crise da história” do país caso suas medidas de choque neoliberal não sejam aplicadas. Uma delas é o Decreto de Necessidade e Urgência – vejam o nome alarmante da medida, escolhido minuciosamente para efeitos de propaganda.

A doutrina do choque de Milei

Parece mesmo que a onda de violência na América Latina está ligada à ascensão da direita, especialmente à eleição de Milei. Como eu havia sugerido, ele é o grande pivô da nova etapa de golpes na região planejada pelo governo dos Estados Unidos. A Argentina, como o segundo principal país do continente, precisa se contrapor ao perigo brasileiro, representado pela política de aproximação com China e Rússia promovida pelo presidente Lula.

O governo Milei se ofereceu para enviar contingentes de segurança ao Equador e a outros países que o necessitar. “Estamos dispostos a ajudá-los e a mandar forças de segurança se necessário”, disse Patricia Bullrich, ministra de Segurança argentina – uma aliada do ex-presidente Mauricio Macri, vinculado diretamente com o grande capital imperialista.

Mas a onda de violência de gangues criminosas se abate também sobre a própria Argentina. Em Rosario, a terceira principal cidade do país, escolas foram fechadas, a coleta de lixo foi suspensa e motoristas paralisaram seus serviços pela falta de segurança após uma sequência de assassinatos atribuídos a traficantes. Bullrich anunciou o envio de centenas de agentes das forças federais e invocou a lei antiterrorismo em Rosario.

O estopim para a rebelião teria sido o tratamento dado pelos carcereiros a presos de uma unidade penitenciária local, imitando a humilhação imposta pelo regime de Nayib Bukele em El Salvador. Tanto Milei como Noboa têm se mostrado muito simpáticos às políticas draconianas de seu par salvadorenho para lidar com o crime. Logo após se eleger, Noboa, por exemplo, anunciou a construção de presídios de segurança máxima ao estilo salvadorenho. O governador de Santa Fe, onde se localiza a cidade de Rosario, é aliado de Milei e tem se inspirado na política de repressão de Bukele.

Todas as medidas de Milei atendem ao roteiro da terapia de choque, aplicadas magistralmente por Pinochet no Chile e Yeltsin na Rússia. Ela consiste em uma rápida privatização da economia apoiada na violenta repressão estatal, para romper qualquer resistência ao desmantelamento das políticas sociais e à entrega dos recursos nacionais aos banqueiros estrangeiros. Toda essa política é coordenada a partir dos EUA.

Controle sobre uma zona estratégica

A existência do crime organizado, uma chaga tradicional na América Latina, sempre foi a desculpa perfeita para o estabelecimento da ditadura repressiva a fim de assegurar a implementação da política de saque neoliberal dos EUA. Isso tem ocorrido particularmente a partir da década de 1980, com a Colômbia como laboratório, onde os EUA impuseram o Plano Colômbia para invadir e controlar militarmente o país. Até hoje, a Colômbia é o principal preposto de Washington no continente, apesar da oposição do atual presidente Gustavo Petro.

Estamos vendo o início de uma repetição do Plano Colômbia no Equador, e possivelmente também na Argentina. Milei acaba de entregar aos EUA o controle de uma das principais vias comerciais da América do Sul, a hidrovia Paraguai-Paraná. Isso possibilitará o acesso pelo exército norte-americano a um ponto-chave da região, entre Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Brasil. Essa zona se notabilizou nas últimas duas décadas pelo trânsito de narcóticos, sendo alvo de enorme atenção pelo governo dos Estados Unidos, que também chegou a sugerir a presença de células terroristas islâmicas no local. Por “coincidência”, ali chegam muitas das mercadorias vindas da China e dali sai boa parte da produção agrícola voltada à exportação. Nessa região também se situa o Aquífero Guarani, uma das principais fontes de água doce do mundo. Também por “coincidência”, a cidade de Rosario, cenário da nova onda criminosa na Argentina, fica à beira do Rio Paraná e hospeda o principal porto dessa região.

A chefe do Comando Sul dos EUA, Laura Richardson, visitou recentemente o Equador, em meio à crise de segurança, e a Argentina. Também passou pelo Uruguai, país chave para essa rota fluvial, onde se encontrou com membros do governo e das Forças Armadas. A central sindical uruguaia denunciou que “o verdadeiro objetivo dessa visita é o interesse pela água doce, já que o Uruguai compartilha o Aquífero Guarani”, bem como a possibilidade de construção de uma base militar americana no país. O Uruguai é governado há quatro anos pela direita conservadora, e o presidente Luis Lacalle Pou foi eleito graças à interferência dos militares em torno do novo partido de extrema-direita, o Cabildo Abierto, que vê com nostalgia os tempos de regime militar entre 1973 e 1985.

Eleições de 2024, importante capítulo do golpe continental

Recentes informes da imprensa independente mostraram o envolvimento da DEA na espionagem e desestabilização na Venezuela, Bolívia e México. Nesses programas do governo dos Estados Unidos, a DEA atuou em conjunto e incentivou as operações dos traficantes de drogas.

O presidente Andrés Manuel López Obrador tem denunciado repetidamente que a imprensa norte-americano vem realizando uma campanha de mentiras contra ele, tentando envolvê-lo com o narcotráfico. No ano passado, os republicanos exerceram pressão para invadir militarmente o México, sob a desculpa de combater o narcotráfico que seria uma “ameaça” à segurança dos EUA. O fato de 70% das armas apreendidas desde o início do governo Obrador terem origem nos Estados Unidos é ocultado por essa campanha.

AMLO não concorrerá à reeleição, mas seu partido tentará manter-se no poder. Não é de interesse dos EUA aceitar um sucessor que mantenha a política nacionalista e moderadamente independente levada adiante por Obrador. Mesmo que Claudia Sheinbaum seja eleita, será pressionada a romper com a política de AMLO.

O presidente da UNASUL, Ernesto Samper, disse à agência Sputnik News que “todo o peso da luta contra as drogas vai ser transferido ao México” para desestabilizar o processo eleitoral, e isso faz parte da estratégia de novos golpes brandos dos EUA na América Latina. É a opinião de alguém que presidiu a Colômbia na década de 1990, durante o auge do crime organizado no país.

A campanha verdadeiramente terrorista levada a cabo pelos principais meios de comunicação a respeito da segurança e da violência visa, em primeiro lugar, eleger os candidatos da direita ou extrema-direita (invariavelmente vinculados aos EUA) e, se não for possível, obrigar os candidatos da esquerda a aplicarem uma política de direita e submissa aos EUA, reprimindo a população, desgastando seu próprio prestígio com seus eleitores, entregando ainda mais o país a Washington e abrindo o caminho para uma posterior chegada da direita ao poder. Em última instância, se necessário, essa campanha visa preparar o terreno para uma intervenção militar americana.

Nayib Bukele foi eleito em El Salvador precisamente por seu programa repressivo, em total compasso com os objetivos dos Estados Unidos no continente. Impôs uma ditadura militar, prendeu dezenas de milhares de pobres (muitos deles inocentes, segundo suas famílias e amigos), estabeleceu um controle férreo sobre todos os poderes do Estado e sobre a imprensa e acaba de se reeleger – inconstitucionalmente – em um pleito no qual a oposição não teve a menor chance de vitória.

Antes, Jair Bolsonaro também foi eleito com a bandeira do combate ao crime no Brasil. E, apesar de toda a repressão contra seus partidários – na verdade, contra seus partidários mais inofensivos, não contra os perigosos –, o bolsonarismo continua muito forte. No final do ano haverá eleições municipais no Brasil e, como sempre tem ocorrido, a segurança pública e a violência criminosa serão os principais temas de debate. Tendo em conta a atual correlação de forças políticas, apesar de Lula ser o presidente, o bolsonarismo deverá sair fortalecido.

E no Brasil também tem batido com força a onda de violência. A fuga de criminosos em uma prisão de alta segurança no estado do Rio Grande do Norte gerou uma enorme campanha nos meios de comunicação e, principalmente, entre a oposição, a favor do endurecimento das leis repressivas. O governo Lula, infestado de elementos de direita e vinculados a interesses americanos, está buscando agradar a esses setores repressivos, acreditando que conseguirá combater a violência e, ao mesmo tempo, contentar aqueles que pedem mão de ferro contra o crime.

Mas a esquerda não foi feita para combater o crime através da repressão estatal. O mestre nesse quesito continua sendo a direita, que tem uma preferência maior entre as classes altas e médias, às quais a repressão do Estado serve para manter seus privilégios contra as classes baixas. E Lula já deve começar a abrir o olho com o governador do principal estado do país, Tarcísio de Freitas, que se elegeu para comandar São Paulo devido ao apoio de Bolsonaro. Freitas parece ser o herdeiro de Bolsonaro – caso este realmente não possa se candidatar à presidência da República – para a disputa em 2026, e está aplicando neste momento uma repressão sanguinária à população pobre do estado de São Paulo sob a justificativa de combater o crime. Como Bolsonaro, Freitas está alinhado com Israel, que envia ao Brasil as armas e equipamentos utilizados no assassinato das massas, e que já deve estar discutindo com os EUA a mudança de regime no Brasil devido às denúncias de Lula contra o genocídio em Gaza.

Lula estará no caminho errado se optar por combater o crime com mais repressão policial, caminho que está sendo perigosamente trilhado por Xiomara Castro em Honduras. Com o apoio unânime da oposição de direita, ela impôs um estado de exceção em busca dos mesmos resultados de Bukele no país vizinho, mas que até agora não funcionou. Percorrer esse caminho, para a esquerda, significa na verdade aplanar o terreno para a volta da direita ao governo. Por isso os EUA a aplaudem.

Duas cartas na manga

Neste momento, os Estados Unidos parecem ter duas opções disponíveis, as quais estão sendo trabalhadas com sucesso. Uma é a eleição de governantes alinhados, sob a bandeira do combate ao crime organizado. Outra é a intervenção militar supostamente para combater diretamente esse mal. O Haiti é o caso mais explícito dentro dessa segunda opção, um país onde a população pauperizada está se levantando contra o domínio imperialista, inspirada nos golpes nacionalistas da África francófona e no exemplo da própria Rússia e onde a iminente intervenção imperialista por meio da ONU contra as gangues servirá exatamente para suprimir aquela revolta popular.

A América Latina é o continente mais violento do mundo por causa direta da sufocante dominação imperialista, que saqueia seus bens há 500 anos e a deixa pobre e miserável, resultando em uma desigualdade social que é explorada pelos mesmos imperialistas para manter seu controle sobre ela. El Salvador é um exemplo disso: 80% dos supostos criminosos presos são jovens, e a juventude é o setor mais afetado pela crise social, com falta de escolas, de emprego e de perspectivas para o futuro, empurrando os jovens para o crime. Muitos desses jovens vêm do campo, onde pelo menos metade da população vive na pobreza.

Ao invés de se inspirarem em El Salvador, que não vai conseguir resolver o problema do crime a longo prazo, justamente por perpetuar as desigualdades sociais, os governos da América Latina deveriam se inspirar em Cuba, único país que não sofreu com essa chaga social nos últimos sessenta anos, precisamente por causa da erradicação da fome, da miséria, das desigualdades sociais e da submissão aos Estados Unidos. E onde há plena liberdade, ao contrário do que dizem os partidários dos Bukele, dos Bolsonaro e dos Milei, estes sim defensores da supressão das liberdades democráticas.

Mas isso exige unidade, e o golpe imperialista em marcha trabalha para dividir ainda mais o continente, a fim de facilitar o seu domínio e dificultar o caminho da independência da América Latina.

Uma onda de rebeliões criminais na América Latina: seria mera coincidência?

Nos últimos meses tem ocorrido uma sequência de acontecimentos muito estranha, não tanto pelos ocorridos em si, mas pela situação política nacional e internacional em que estão inseridos.

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Crime, violência e tráfico de drogas não são novidade para nenhum latino-americano – com a exceção honrosa dos cubanos. Mas nos últimos meses tem ocorrido uma sequência de acontecimentos muito estranha, não tanto pelos ocorridos em si, mas pela situação política nacional e internacional em que estão inseridos.

Como observei no final de janeiro, a onda de violência está conectada com a ascensão de governos de direita ou extrema-direita alinhados com os Estados Unidos. A primeira evidência disso foi a eleição de Daniel Noboa no Equador. Por coincidência ou não, ela foi acompanhada por um levantamento criminoso a nível nacional que serviu de justificativa perfeita para Noboa aplicar uma política de repressão e fechamento do regime, entregando o poder aos militares e permitindo a chegada de novos agentes dos EUA, incluindo militares e membros do FBI, para supostamente reforçar o combate ao narcotráfico.

Ele declarou: “precisamos de cooperação internacional. Estou feliz em aceitar a cooperação dos EUA. Precisamos de equipamento, de armas, de informações, e penso que este é um problema global.” Segundo Noboa, a situação é de “conflito armado” contra o “terrorismo” e isso não seria uma exclusividade do Equador, mas um problema que “transcende as fronteiras nacionais”.

Por sua vez, a porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Adrienne Watson, disse: “aumentamos nosso apoio às forças equatorianas em matéria de aplicação da lei e da defesa”, enquanto “advogados do Departamento de Justiça, assim como agentes do FBI e da Agência Antidrogas [DEA], continuam apoiando as investigações do Equador sobre a recente violência política e criminosa”.

Em praticamente um mês de governo, Noboa aprofundou vertiginosamente a dependência do Equador em relação aos Estados Unidos, e, em meio ao genocídio em Gaza, também elevou o nível de relações com Israel. O presidente equatoriano chegou a ameaçar seriamente de entregar aos EUA os armamentos comprados da Rússia, o que só não ocorreu porque Moscou cortaria as importações de banana de Quito. De qualquer forma, Noboa demonstrou claramente sua disposição em se submeter integralmente aos desígnios de Washington.

O governo equatoriano afirma que o país vive um estado de “grave comoção interna”, o que lembra o tom alarmante empregado por Javier Milei desde que tomou o controle do governo na Argentina. O presidente argentino vem ameaçando a chegada da “pior crise da história” do país caso suas medidas de choque neoliberal não sejam aplicadas. Uma delas é o Decreto de Necessidade e Urgência – vejam o nome alarmante da medida, escolhido minuciosamente para efeitos de propaganda.

A doutrina do choque de Milei

Parece mesmo que a onda de violência na América Latina está ligada à ascensão da direita, especialmente à eleição de Milei. Como eu havia sugerido, ele é o grande pivô da nova etapa de golpes na região planejada pelo governo dos Estados Unidos. A Argentina, como o segundo principal país do continente, precisa se contrapor ao perigo brasileiro, representado pela política de aproximação com China e Rússia promovida pelo presidente Lula.

O governo Milei se ofereceu para enviar contingentes de segurança ao Equador e a outros países que o necessitar. “Estamos dispostos a ajudá-los e a mandar forças de segurança se necessário”, disse Patricia Bullrich, ministra de Segurança argentina – uma aliada do ex-presidente Mauricio Macri, vinculado diretamente com o grande capital imperialista.

Mas a onda de violência de gangues criminosas se abate também sobre a própria Argentina. Em Rosario, a terceira principal cidade do país, escolas foram fechadas, a coleta de lixo foi suspensa e motoristas paralisaram seus serviços pela falta de segurança após uma sequência de assassinatos atribuídos a traficantes. Bullrich anunciou o envio de centenas de agentes das forças federais e invocou a lei antiterrorismo em Rosario.

O estopim para a rebelião teria sido o tratamento dado pelos carcereiros a presos de uma unidade penitenciária local, imitando a humilhação imposta pelo regime de Nayib Bukele em El Salvador. Tanto Milei como Noboa têm se mostrado muito simpáticos às políticas draconianas de seu par salvadorenho para lidar com o crime. Logo após se eleger, Noboa, por exemplo, anunciou a construção de presídios de segurança máxima ao estilo salvadorenho. O governador de Santa Fe, onde se localiza a cidade de Rosario, é aliado de Milei e tem se inspirado na política de repressão de Bukele.

Todas as medidas de Milei atendem ao roteiro da terapia de choque, aplicadas magistralmente por Pinochet no Chile e Yeltsin na Rússia. Ela consiste em uma rápida privatização da economia apoiada na violenta repressão estatal, para romper qualquer resistência ao desmantelamento das políticas sociais e à entrega dos recursos nacionais aos banqueiros estrangeiros. Toda essa política é coordenada a partir dos EUA.

Controle sobre uma zona estratégica

A existência do crime organizado, uma chaga tradicional na América Latina, sempre foi a desculpa perfeita para o estabelecimento da ditadura repressiva a fim de assegurar a implementação da política de saque neoliberal dos EUA. Isso tem ocorrido particularmente a partir da década de 1980, com a Colômbia como laboratório, onde os EUA impuseram o Plano Colômbia para invadir e controlar militarmente o país. Até hoje, a Colômbia é o principal preposto de Washington no continente, apesar da oposição do atual presidente Gustavo Petro.

Estamos vendo o início de uma repetição do Plano Colômbia no Equador, e possivelmente também na Argentina. Milei acaba de entregar aos EUA o controle de uma das principais vias comerciais da América do Sul, a hidrovia Paraguai-Paraná. Isso possibilitará o acesso pelo exército norte-americano a um ponto-chave da região, entre Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Brasil. Essa zona se notabilizou nas últimas duas décadas pelo trânsito de narcóticos, sendo alvo de enorme atenção pelo governo dos Estados Unidos, que também chegou a sugerir a presença de células terroristas islâmicas no local. Por “coincidência”, ali chegam muitas das mercadorias vindas da China e dali sai boa parte da produção agrícola voltada à exportação. Nessa região também se situa o Aquífero Guarani, uma das principais fontes de água doce do mundo. Também por “coincidência”, a cidade de Rosario, cenário da nova onda criminosa na Argentina, fica à beira do Rio Paraná e hospeda o principal porto dessa região.

A chefe do Comando Sul dos EUA, Laura Richardson, visitou recentemente o Equador, em meio à crise de segurança, e a Argentina. Também passou pelo Uruguai, país chave para essa rota fluvial, onde se encontrou com membros do governo e das Forças Armadas. A central sindical uruguaia denunciou que “o verdadeiro objetivo dessa visita é o interesse pela água doce, já que o Uruguai compartilha o Aquífero Guarani”, bem como a possibilidade de construção de uma base militar americana no país. O Uruguai é governado há quatro anos pela direita conservadora, e o presidente Luis Lacalle Pou foi eleito graças à interferência dos militares em torno do novo partido de extrema-direita, o Cabildo Abierto, que vê com nostalgia os tempos de regime militar entre 1973 e 1985.

Eleições de 2024, importante capítulo do golpe continental

Recentes informes da imprensa independente mostraram o envolvimento da DEA na espionagem e desestabilização na Venezuela, Bolívia e México. Nesses programas do governo dos Estados Unidos, a DEA atuou em conjunto e incentivou as operações dos traficantes de drogas.

O presidente Andrés Manuel López Obrador tem denunciado repetidamente que a imprensa norte-americano vem realizando uma campanha de mentiras contra ele, tentando envolvê-lo com o narcotráfico. No ano passado, os republicanos exerceram pressão para invadir militarmente o México, sob a desculpa de combater o narcotráfico que seria uma “ameaça” à segurança dos EUA. O fato de 70% das armas apreendidas desde o início do governo Obrador terem origem nos Estados Unidos é ocultado por essa campanha.

AMLO não concorrerá à reeleição, mas seu partido tentará manter-se no poder. Não é de interesse dos EUA aceitar um sucessor que mantenha a política nacionalista e moderadamente independente levada adiante por Obrador. Mesmo que Claudia Sheinbaum seja eleita, será pressionada a romper com a política de AMLO.

O presidente da UNASUL, Ernesto Samper, disse à agência Sputnik News que “todo o peso da luta contra as drogas vai ser transferido ao México” para desestabilizar o processo eleitoral, e isso faz parte da estratégia de novos golpes brandos dos EUA na América Latina. É a opinião de alguém que presidiu a Colômbia na década de 1990, durante o auge do crime organizado no país.

A campanha verdadeiramente terrorista levada a cabo pelos principais meios de comunicação a respeito da segurança e da violência visa, em primeiro lugar, eleger os candidatos da direita ou extrema-direita (invariavelmente vinculados aos EUA) e, se não for possível, obrigar os candidatos da esquerda a aplicarem uma política de direita e submissa aos EUA, reprimindo a população, desgastando seu próprio prestígio com seus eleitores, entregando ainda mais o país a Washington e abrindo o caminho para uma posterior chegada da direita ao poder. Em última instância, se necessário, essa campanha visa preparar o terreno para uma intervenção militar americana.

Nayib Bukele foi eleito em El Salvador precisamente por seu programa repressivo, em total compasso com os objetivos dos Estados Unidos no continente. Impôs uma ditadura militar, prendeu dezenas de milhares de pobres (muitos deles inocentes, segundo suas famílias e amigos), estabeleceu um controle férreo sobre todos os poderes do Estado e sobre a imprensa e acaba de se reeleger – inconstitucionalmente – em um pleito no qual a oposição não teve a menor chance de vitória.

Antes, Jair Bolsonaro também foi eleito com a bandeira do combate ao crime no Brasil. E, apesar de toda a repressão contra seus partidários – na verdade, contra seus partidários mais inofensivos, não contra os perigosos –, o bolsonarismo continua muito forte. No final do ano haverá eleições municipais no Brasil e, como sempre tem ocorrido, a segurança pública e a violência criminosa serão os principais temas de debate. Tendo em conta a atual correlação de forças políticas, apesar de Lula ser o presidente, o bolsonarismo deverá sair fortalecido.

E no Brasil também tem batido com força a onda de violência. A fuga de criminosos em uma prisão de alta segurança no estado do Rio Grande do Norte gerou uma enorme campanha nos meios de comunicação e, principalmente, entre a oposição, a favor do endurecimento das leis repressivas. O governo Lula, infestado de elementos de direita e vinculados a interesses americanos, está buscando agradar a esses setores repressivos, acreditando que conseguirá combater a violência e, ao mesmo tempo, contentar aqueles que pedem mão de ferro contra o crime.

Mas a esquerda não foi feita para combater o crime através da repressão estatal. O mestre nesse quesito continua sendo a direita, que tem uma preferência maior entre as classes altas e médias, às quais a repressão do Estado serve para manter seus privilégios contra as classes baixas. E Lula já deve começar a abrir o olho com o governador do principal estado do país, Tarcísio de Freitas, que se elegeu para comandar São Paulo devido ao apoio de Bolsonaro. Freitas parece ser o herdeiro de Bolsonaro – caso este realmente não possa se candidatar à presidência da República – para a disputa em 2026, e está aplicando neste momento uma repressão sanguinária à população pobre do estado de São Paulo sob a justificativa de combater o crime. Como Bolsonaro, Freitas está alinhado com Israel, que envia ao Brasil as armas e equipamentos utilizados no assassinato das massas, e que já deve estar discutindo com os EUA a mudança de regime no Brasil devido às denúncias de Lula contra o genocídio em Gaza.

Lula estará no caminho errado se optar por combater o crime com mais repressão policial, caminho que está sendo perigosamente trilhado por Xiomara Castro em Honduras. Com o apoio unânime da oposição de direita, ela impôs um estado de exceção em busca dos mesmos resultados de Bukele no país vizinho, mas que até agora não funcionou. Percorrer esse caminho, para a esquerda, significa na verdade aplanar o terreno para a volta da direita ao governo. Por isso os EUA a aplaudem.

Duas cartas na manga

Neste momento, os Estados Unidos parecem ter duas opções disponíveis, as quais estão sendo trabalhadas com sucesso. Uma é a eleição de governantes alinhados, sob a bandeira do combate ao crime organizado. Outra é a intervenção militar supostamente para combater diretamente esse mal. O Haiti é o caso mais explícito dentro dessa segunda opção, um país onde a população pauperizada está se levantando contra o domínio imperialista, inspirada nos golpes nacionalistas da África francófona e no exemplo da própria Rússia e onde a iminente intervenção imperialista por meio da ONU contra as gangues servirá exatamente para suprimir aquela revolta popular.

A América Latina é o continente mais violento do mundo por causa direta da sufocante dominação imperialista, que saqueia seus bens há 500 anos e a deixa pobre e miserável, resultando em uma desigualdade social que é explorada pelos mesmos imperialistas para manter seu controle sobre ela. El Salvador é um exemplo disso: 80% dos supostos criminosos presos são jovens, e a juventude é o setor mais afetado pela crise social, com falta de escolas, de emprego e de perspectivas para o futuro, empurrando os jovens para o crime. Muitos desses jovens vêm do campo, onde pelo menos metade da população vive na pobreza.

Ao invés de se inspirarem em El Salvador, que não vai conseguir resolver o problema do crime a longo prazo, justamente por perpetuar as desigualdades sociais, os governos da América Latina deveriam se inspirar em Cuba, único país que não sofreu com essa chaga social nos últimos sessenta anos, precisamente por causa da erradicação da fome, da miséria, das desigualdades sociais e da submissão aos Estados Unidos. E onde há plena liberdade, ao contrário do que dizem os partidários dos Bukele, dos Bolsonaro e dos Milei, estes sim defensores da supressão das liberdades democráticas.

Mas isso exige unidade, e o golpe imperialista em marcha trabalha para dividir ainda mais o continente, a fim de facilitar o seu domínio e dificultar o caminho da independência da América Latina.

Nos últimos meses tem ocorrido uma sequência de acontecimentos muito estranha, não tanto pelos ocorridos em si, mas pela situação política nacional e internacional em que estão inseridos.

Junte-se a nós no Telegram Twitter  e VK .

Escreva para nós: info@strategic-culture.su

Crime, violência e tráfico de drogas não são novidade para nenhum latino-americano – com a exceção honrosa dos cubanos. Mas nos últimos meses tem ocorrido uma sequência de acontecimentos muito estranha, não tanto pelos ocorridos em si, mas pela situação política nacional e internacional em que estão inseridos.

Como observei no final de janeiro, a onda de violência está conectada com a ascensão de governos de direita ou extrema-direita alinhados com os Estados Unidos. A primeira evidência disso foi a eleição de Daniel Noboa no Equador. Por coincidência ou não, ela foi acompanhada por um levantamento criminoso a nível nacional que serviu de justificativa perfeita para Noboa aplicar uma política de repressão e fechamento do regime, entregando o poder aos militares e permitindo a chegada de novos agentes dos EUA, incluindo militares e membros do FBI, para supostamente reforçar o combate ao narcotráfico.

Ele declarou: “precisamos de cooperação internacional. Estou feliz em aceitar a cooperação dos EUA. Precisamos de equipamento, de armas, de informações, e penso que este é um problema global.” Segundo Noboa, a situação é de “conflito armado” contra o “terrorismo” e isso não seria uma exclusividade do Equador, mas um problema que “transcende as fronteiras nacionais”.

Por sua vez, a porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Adrienne Watson, disse: “aumentamos nosso apoio às forças equatorianas em matéria de aplicação da lei e da defesa”, enquanto “advogados do Departamento de Justiça, assim como agentes do FBI e da Agência Antidrogas [DEA], continuam apoiando as investigações do Equador sobre a recente violência política e criminosa”.

Em praticamente um mês de governo, Noboa aprofundou vertiginosamente a dependência do Equador em relação aos Estados Unidos, e, em meio ao genocídio em Gaza, também elevou o nível de relações com Israel. O presidente equatoriano chegou a ameaçar seriamente de entregar aos EUA os armamentos comprados da Rússia, o que só não ocorreu porque Moscou cortaria as importações de banana de Quito. De qualquer forma, Noboa demonstrou claramente sua disposição em se submeter integralmente aos desígnios de Washington.

O governo equatoriano afirma que o país vive um estado de “grave comoção interna”, o que lembra o tom alarmante empregado por Javier Milei desde que tomou o controle do governo na Argentina. O presidente argentino vem ameaçando a chegada da “pior crise da história” do país caso suas medidas de choque neoliberal não sejam aplicadas. Uma delas é o Decreto de Necessidade e Urgência – vejam o nome alarmante da medida, escolhido minuciosamente para efeitos de propaganda.

A doutrina do choque de Milei

Parece mesmo que a onda de violência na América Latina está ligada à ascensão da direita, especialmente à eleição de Milei. Como eu havia sugerido, ele é o grande pivô da nova etapa de golpes na região planejada pelo governo dos Estados Unidos. A Argentina, como o segundo principal país do continente, precisa se contrapor ao perigo brasileiro, representado pela política de aproximação com China e Rússia promovida pelo presidente Lula.

O governo Milei se ofereceu para enviar contingentes de segurança ao Equador e a outros países que o necessitar. “Estamos dispostos a ajudá-los e a mandar forças de segurança se necessário”, disse Patricia Bullrich, ministra de Segurança argentina – uma aliada do ex-presidente Mauricio Macri, vinculado diretamente com o grande capital imperialista.

Mas a onda de violência de gangues criminosas se abate também sobre a própria Argentina. Em Rosario, a terceira principal cidade do país, escolas foram fechadas, a coleta de lixo foi suspensa e motoristas paralisaram seus serviços pela falta de segurança após uma sequência de assassinatos atribuídos a traficantes. Bullrich anunciou o envio de centenas de agentes das forças federais e invocou a lei antiterrorismo em Rosario.

O estopim para a rebelião teria sido o tratamento dado pelos carcereiros a presos de uma unidade penitenciária local, imitando a humilhação imposta pelo regime de Nayib Bukele em El Salvador. Tanto Milei como Noboa têm se mostrado muito simpáticos às políticas draconianas de seu par salvadorenho para lidar com o crime. Logo após se eleger, Noboa, por exemplo, anunciou a construção de presídios de segurança máxima ao estilo salvadorenho. O governador de Santa Fe, onde se localiza a cidade de Rosario, é aliado de Milei e tem se inspirado na política de repressão de Bukele.

Todas as medidas de Milei atendem ao roteiro da terapia de choque, aplicadas magistralmente por Pinochet no Chile e Yeltsin na Rússia. Ela consiste em uma rápida privatização da economia apoiada na violenta repressão estatal, para romper qualquer resistência ao desmantelamento das políticas sociais e à entrega dos recursos nacionais aos banqueiros estrangeiros. Toda essa política é coordenada a partir dos EUA.

Controle sobre uma zona estratégica

A existência do crime organizado, uma chaga tradicional na América Latina, sempre foi a desculpa perfeita para o estabelecimento da ditadura repressiva a fim de assegurar a implementação da política de saque neoliberal dos EUA. Isso tem ocorrido particularmente a partir da década de 1980, com a Colômbia como laboratório, onde os EUA impuseram o Plano Colômbia para invadir e controlar militarmente o país. Até hoje, a Colômbia é o principal preposto de Washington no continente, apesar da oposição do atual presidente Gustavo Petro.

Estamos vendo o início de uma repetição do Plano Colômbia no Equador, e possivelmente também na Argentina. Milei acaba de entregar aos EUA o controle de uma das principais vias comerciais da América do Sul, a hidrovia Paraguai-Paraná. Isso possibilitará o acesso pelo exército norte-americano a um ponto-chave da região, entre Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Brasil. Essa zona se notabilizou nas últimas duas décadas pelo trânsito de narcóticos, sendo alvo de enorme atenção pelo governo dos Estados Unidos, que também chegou a sugerir a presença de células terroristas islâmicas no local. Por “coincidência”, ali chegam muitas das mercadorias vindas da China e dali sai boa parte da produção agrícola voltada à exportação. Nessa região também se situa o Aquífero Guarani, uma das principais fontes de água doce do mundo. Também por “coincidência”, a cidade de Rosario, cenário da nova onda criminosa na Argentina, fica à beira do Rio Paraná e hospeda o principal porto dessa região.

A chefe do Comando Sul dos EUA, Laura Richardson, visitou recentemente o Equador, em meio à crise de segurança, e a Argentina. Também passou pelo Uruguai, país chave para essa rota fluvial, onde se encontrou com membros do governo e das Forças Armadas. A central sindical uruguaia denunciou que “o verdadeiro objetivo dessa visita é o interesse pela água doce, já que o Uruguai compartilha o Aquífero Guarani”, bem como a possibilidade de construção de uma base militar americana no país. O Uruguai é governado há quatro anos pela direita conservadora, e o presidente Luis Lacalle Pou foi eleito graças à interferência dos militares em torno do novo partido de extrema-direita, o Cabildo Abierto, que vê com nostalgia os tempos de regime militar entre 1973 e 1985.

Eleições de 2024, importante capítulo do golpe continental

Recentes informes da imprensa independente mostraram o envolvimento da DEA na espionagem e desestabilização na Venezuela, Bolívia e México. Nesses programas do governo dos Estados Unidos, a DEA atuou em conjunto e incentivou as operações dos traficantes de drogas.

O presidente Andrés Manuel López Obrador tem denunciado repetidamente que a imprensa norte-americano vem realizando uma campanha de mentiras contra ele, tentando envolvê-lo com o narcotráfico. No ano passado, os republicanos exerceram pressão para invadir militarmente o México, sob a desculpa de combater o narcotráfico que seria uma “ameaça” à segurança dos EUA. O fato de 70% das armas apreendidas desde o início do governo Obrador terem origem nos Estados Unidos é ocultado por essa campanha.

AMLO não concorrerá à reeleição, mas seu partido tentará manter-se no poder. Não é de interesse dos EUA aceitar um sucessor que mantenha a política nacionalista e moderadamente independente levada adiante por Obrador. Mesmo que Claudia Sheinbaum seja eleita, será pressionada a romper com a política de AMLO.

O presidente da UNASUL, Ernesto Samper, disse à agência Sputnik News que “todo o peso da luta contra as drogas vai ser transferido ao México” para desestabilizar o processo eleitoral, e isso faz parte da estratégia de novos golpes brandos dos EUA na América Latina. É a opinião de alguém que presidiu a Colômbia na década de 1990, durante o auge do crime organizado no país.

A campanha verdadeiramente terrorista levada a cabo pelos principais meios de comunicação a respeito da segurança e da violência visa, em primeiro lugar, eleger os candidatos da direita ou extrema-direita (invariavelmente vinculados aos EUA) e, se não for possível, obrigar os candidatos da esquerda a aplicarem uma política de direita e submissa aos EUA, reprimindo a população, desgastando seu próprio prestígio com seus eleitores, entregando ainda mais o país a Washington e abrindo o caminho para uma posterior chegada da direita ao poder. Em última instância, se necessário, essa campanha visa preparar o terreno para uma intervenção militar americana.

Nayib Bukele foi eleito em El Salvador precisamente por seu programa repressivo, em total compasso com os objetivos dos Estados Unidos no continente. Impôs uma ditadura militar, prendeu dezenas de milhares de pobres (muitos deles inocentes, segundo suas famílias e amigos), estabeleceu um controle férreo sobre todos os poderes do Estado e sobre a imprensa e acaba de se reeleger – inconstitucionalmente – em um pleito no qual a oposição não teve a menor chance de vitória.

Antes, Jair Bolsonaro também foi eleito com a bandeira do combate ao crime no Brasil. E, apesar de toda a repressão contra seus partidários – na verdade, contra seus partidários mais inofensivos, não contra os perigosos –, o bolsonarismo continua muito forte. No final do ano haverá eleições municipais no Brasil e, como sempre tem ocorrido, a segurança pública e a violência criminosa serão os principais temas de debate. Tendo em conta a atual correlação de forças políticas, apesar de Lula ser o presidente, o bolsonarismo deverá sair fortalecido.

E no Brasil também tem batido com força a onda de violência. A fuga de criminosos em uma prisão de alta segurança no estado do Rio Grande do Norte gerou uma enorme campanha nos meios de comunicação e, principalmente, entre a oposição, a favor do endurecimento das leis repressivas. O governo Lula, infestado de elementos de direita e vinculados a interesses americanos, está buscando agradar a esses setores repressivos, acreditando que conseguirá combater a violência e, ao mesmo tempo, contentar aqueles que pedem mão de ferro contra o crime.

Mas a esquerda não foi feita para combater o crime através da repressão estatal. O mestre nesse quesito continua sendo a direita, que tem uma preferência maior entre as classes altas e médias, às quais a repressão do Estado serve para manter seus privilégios contra as classes baixas. E Lula já deve começar a abrir o olho com o governador do principal estado do país, Tarcísio de Freitas, que se elegeu para comandar São Paulo devido ao apoio de Bolsonaro. Freitas parece ser o herdeiro de Bolsonaro – caso este realmente não possa se candidatar à presidência da República – para a disputa em 2026, e está aplicando neste momento uma repressão sanguinária à população pobre do estado de São Paulo sob a justificativa de combater o crime. Como Bolsonaro, Freitas está alinhado com Israel, que envia ao Brasil as armas e equipamentos utilizados no assassinato das massas, e que já deve estar discutindo com os EUA a mudança de regime no Brasil devido às denúncias de Lula contra o genocídio em Gaza.

Lula estará no caminho errado se optar por combater o crime com mais repressão policial, caminho que está sendo perigosamente trilhado por Xiomara Castro em Honduras. Com o apoio unânime da oposição de direita, ela impôs um estado de exceção em busca dos mesmos resultados de Bukele no país vizinho, mas que até agora não funcionou. Percorrer esse caminho, para a esquerda, significa na verdade aplanar o terreno para a volta da direita ao governo. Por isso os EUA a aplaudem.

Duas cartas na manga

Neste momento, os Estados Unidos parecem ter duas opções disponíveis, as quais estão sendo trabalhadas com sucesso. Uma é a eleição de governantes alinhados, sob a bandeira do combate ao crime organizado. Outra é a intervenção militar supostamente para combater diretamente esse mal. O Haiti é o caso mais explícito dentro dessa segunda opção, um país onde a população pauperizada está se levantando contra o domínio imperialista, inspirada nos golpes nacionalistas da África francófona e no exemplo da própria Rússia e onde a iminente intervenção imperialista por meio da ONU contra as gangues servirá exatamente para suprimir aquela revolta popular.

A América Latina é o continente mais violento do mundo por causa direta da sufocante dominação imperialista, que saqueia seus bens há 500 anos e a deixa pobre e miserável, resultando em uma desigualdade social que é explorada pelos mesmos imperialistas para manter seu controle sobre ela. El Salvador é um exemplo disso: 80% dos supostos criminosos presos são jovens, e a juventude é o setor mais afetado pela crise social, com falta de escolas, de emprego e de perspectivas para o futuro, empurrando os jovens para o crime. Muitos desses jovens vêm do campo, onde pelo menos metade da população vive na pobreza.

Ao invés de se inspirarem em El Salvador, que não vai conseguir resolver o problema do crime a longo prazo, justamente por perpetuar as desigualdades sociais, os governos da América Latina deveriam se inspirar em Cuba, único país que não sofreu com essa chaga social nos últimos sessenta anos, precisamente por causa da erradicação da fome, da miséria, das desigualdades sociais e da submissão aos Estados Unidos. E onde há plena liberdade, ao contrário do que dizem os partidários dos Bukele, dos Bolsonaro e dos Milei, estes sim defensores da supressão das liberdades democráticas.

Mas isso exige unidade, e o golpe imperialista em marcha trabalha para dividir ainda mais o continente, a fim de facilitar o seu domínio e dificultar o caminho da independência da América Latina.

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