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Raphael Machado
January 23, 2026
© Photo: Public domain

É plausível que o Ártico torne-se, na verdade, uma das zonas mais “quentes” do mundo na década de 30 desse novo século.

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Sejamos sinceros: não fazemos a menor ideia sobre como terminará essa “novela” das tensões entre EUA e Europa pela Groenlândia. Considerando o histórico errático de Trump, tudo isso pode acabar não resultando em absolutamente em nada, ou os EUA podem acabar simplesmente usando fuzileiros navais e paraquedistas para ocupar a grande ilha setentrional. Ou, mais moderadamente, de fato comprando o lugar, ou ainda pelo menos fechando um acordo cedendo o uso de partes da ilha.

Aquilo de que podemos ter certeza, porém, é que o interesse de Trump pela Groenlândia não é fruto de um surto, mera húbris ou simplesmente ódio à Europa. Existe uma clara lógica geopolítica por trás desse interesse, e ela diz respeito a um dos próximos cenários potenciais de conflito planetário.

A dimensão mais óbvia do interesse pela Groenlândia se funda propriamente na atualização trumpista da Doutrina Monroe. Quando a Doutrina Monroe foi, primeiro, desenvolvida, ainda que abstratamente ela fosse uma declaração de intenções de expulsão da Europa das Américas, seu alvo principal era a Espanha e suas possessões remanescentes no hemisfério ocidental.

Conforme a Doutrina Monroe já vinha sendo retomada sob o governo Biden, parecia autoevidente que ela estaria dirigida contra os vínculos russo-chineses de vários países da região. Claramente não era esperado, porém, que a dimensão antieuropeia da Doutrina Monroe ainda permanecesse em vigor. Os EUA, agora é óbvio, pretendem dar continuidade à remoção da presença europeia das Américas. Isso foi muito bem notado pelo francês Jordan Bardella, atual presidente do Rassemblement National, que num discurso recente ressaltou que se os EUA tomassem a Groenlândia da Dinamarca, em breve poderia ser a vez de territórios franceses (como a Guiana Francesa, Martinica, Guadalupe, Saint Barthélemy, Saint Martin e Saint Pierre & Miquelon.

Mas existe uma especificidade na Groenlândia que transcende a pauta da Doutrina Monroe: a sua posição nas cercanias do Ártico.

Os fluxos climáticos que, contemporaneamente, estão levando a um parcial degelo da Zona Ártica estão abrindo a potencialidade de novas rotas comerciais alternativas às tradicionais. Também sabemos que o lugar, supostamente, abrigaria 13% das reservas ainda não descobertas de petróleo, bem como 30% das de gás, além de ouro, rubis, diamantes, zinco, ferro, cobre, terras raras e muito urânio no subsolo da maior ilha do mundo.  Mais subestimado, mas não menos importante, é o fato de que o aquecimento das águas setentrionais têm atraído cardumes de peixes, o que tem implicações para a pesca.

Naturalmente, não se pode olvidar o interesse estratégico do Ártico como possível área de trajetória de mísseis dirigidos contra outros inimigos situados no Hemisfério Norte do planeta. O Ártico oferece uma rota mais curta para hipotéticos ataques intercontinentais.

Quem parece ter se apercebido pioneiramente do potencial inexplorado do Ártico parece ter sido a Rússia, que começou um longo processo de revitalização, reforma, atualização e construção de infraestrutura civil-comercial das suas áreas setentrionais mais próximas à região. Moscou aumentou também a atividade de navios quebra-gelo, visando abrir uma nova rota marítima alternativa à do Mar Negro, tornada mais insegura pelo contexto regional da operação militar especial. As primeiras iniciativas russas em relação ao Ártico foram, porém, majoritariamente de teor civil e comercial, e se comunicam com o projeto chinês de uma Rota da Seda Polar, envolvendo também a Coreia do Norte.

A resposta ocidental veio com a militarização da Zona Ártica.

Já em 2020, Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Nova Zelândia, Noruega e Suécia assinaram o acordo do Programa de Pesquisa Polar Cooperativa Internacional, o qual aponta para uma abordagem multidisciplinar visando a plena investigação e ocupação de todo o Ártico. Alguns desses países também vem fazendo investimentos pesados no desenvolvimento de novas tecnologias para facilitar a exploração da região. No ano de 2021, o Pentágono publicava a sua estratégia para o Ártico, envolvendo o treinamento de unidades militares especializadas para atuar na região. Em 2022, usando como justificativa a operação militar especial, esses países abandonaram o Conselho do Ártico, uma estrutura multilateral voltada para a cooperação naquela região.

Tudo isso tem visto aplicações práticas, como a reativação da Segunda Frota da Marinha dos EUA, dedicada ao Atlântico Norte e ao Ártico, bem como a revitalização da base dos EUA em Keflavik, na Islândia. 4 bilhões de dólares do orçamento estadunidense foram dedicados para aprimorar as capacidades árticas dos EUA.

O que é peculiar, porém, é que todos esses esforços passados foram empreendidos em coordenação com esforços análogos do Canadá e dos aliados escandinavos. Agora, porém, os EUA atuam de forma contrária ou mesmo oposta aos seus antigos aliados, aparentemente não mais acreditando num controle compartilhado do Ártico.

Mais do que interessados em petróleo e gás, os EUA parecem querer transformar a Groenlândia como um todo numa plataforma militar, repleta de bases e voltada, no longo prazo, contra a Rússia, a qual já vinha respondendo a esses esforços ocidentais de militarização do Ártico com a sua própria revitalização de antigos ativos militares soviéticos, bem como com o reforço da Frota Setentrional.

Trump nem mesmo precisa realmente tornar-se “proprietário” da ilha para alcançar esse objetivo, de modo que o objetivo do Deep State se cumpre desde que simplesmente a Dinamarca aceite ceder partes do território groenlandês, especialmente ao norte, para os EUA.

Com os eventos transcorrendo dessa forma, é plausível que o Ártico torne-se, na verdade, uma das zonas mais “quentes” do mundo na década de 30 desse novo século.

A Groenlândia no contexto da Guerra Secreta pelo Ártico

É plausível que o Ártico torne-se, na verdade, uma das zonas mais “quentes” do mundo na década de 30 desse novo século.

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Sejamos sinceros: não fazemos a menor ideia sobre como terminará essa “novela” das tensões entre EUA e Europa pela Groenlândia. Considerando o histórico errático de Trump, tudo isso pode acabar não resultando em absolutamente em nada, ou os EUA podem acabar simplesmente usando fuzileiros navais e paraquedistas para ocupar a grande ilha setentrional. Ou, mais moderadamente, de fato comprando o lugar, ou ainda pelo menos fechando um acordo cedendo o uso de partes da ilha.

Aquilo de que podemos ter certeza, porém, é que o interesse de Trump pela Groenlândia não é fruto de um surto, mera húbris ou simplesmente ódio à Europa. Existe uma clara lógica geopolítica por trás desse interesse, e ela diz respeito a um dos próximos cenários potenciais de conflito planetário.

A dimensão mais óbvia do interesse pela Groenlândia se funda propriamente na atualização trumpista da Doutrina Monroe. Quando a Doutrina Monroe foi, primeiro, desenvolvida, ainda que abstratamente ela fosse uma declaração de intenções de expulsão da Europa das Américas, seu alvo principal era a Espanha e suas possessões remanescentes no hemisfério ocidental.

Conforme a Doutrina Monroe já vinha sendo retomada sob o governo Biden, parecia autoevidente que ela estaria dirigida contra os vínculos russo-chineses de vários países da região. Claramente não era esperado, porém, que a dimensão antieuropeia da Doutrina Monroe ainda permanecesse em vigor. Os EUA, agora é óbvio, pretendem dar continuidade à remoção da presença europeia das Américas. Isso foi muito bem notado pelo francês Jordan Bardella, atual presidente do Rassemblement National, que num discurso recente ressaltou que se os EUA tomassem a Groenlândia da Dinamarca, em breve poderia ser a vez de territórios franceses (como a Guiana Francesa, Martinica, Guadalupe, Saint Barthélemy, Saint Martin e Saint Pierre & Miquelon.

Mas existe uma especificidade na Groenlândia que transcende a pauta da Doutrina Monroe: a sua posição nas cercanias do Ártico.

Os fluxos climáticos que, contemporaneamente, estão levando a um parcial degelo da Zona Ártica estão abrindo a potencialidade de novas rotas comerciais alternativas às tradicionais. Também sabemos que o lugar, supostamente, abrigaria 13% das reservas ainda não descobertas de petróleo, bem como 30% das de gás, além de ouro, rubis, diamantes, zinco, ferro, cobre, terras raras e muito urânio no subsolo da maior ilha do mundo.  Mais subestimado, mas não menos importante, é o fato de que o aquecimento das águas setentrionais têm atraído cardumes de peixes, o que tem implicações para a pesca.

Naturalmente, não se pode olvidar o interesse estratégico do Ártico como possível área de trajetória de mísseis dirigidos contra outros inimigos situados no Hemisfério Norte do planeta. O Ártico oferece uma rota mais curta para hipotéticos ataques intercontinentais.

Quem parece ter se apercebido pioneiramente do potencial inexplorado do Ártico parece ter sido a Rússia, que começou um longo processo de revitalização, reforma, atualização e construção de infraestrutura civil-comercial das suas áreas setentrionais mais próximas à região. Moscou aumentou também a atividade de navios quebra-gelo, visando abrir uma nova rota marítima alternativa à do Mar Negro, tornada mais insegura pelo contexto regional da operação militar especial. As primeiras iniciativas russas em relação ao Ártico foram, porém, majoritariamente de teor civil e comercial, e se comunicam com o projeto chinês de uma Rota da Seda Polar, envolvendo também a Coreia do Norte.

A resposta ocidental veio com a militarização da Zona Ártica.

Já em 2020, Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Nova Zelândia, Noruega e Suécia assinaram o acordo do Programa de Pesquisa Polar Cooperativa Internacional, o qual aponta para uma abordagem multidisciplinar visando a plena investigação e ocupação de todo o Ártico. Alguns desses países também vem fazendo investimentos pesados no desenvolvimento de novas tecnologias para facilitar a exploração da região. No ano de 2021, o Pentágono publicava a sua estratégia para o Ártico, envolvendo o treinamento de unidades militares especializadas para atuar na região. Em 2022, usando como justificativa a operação militar especial, esses países abandonaram o Conselho do Ártico, uma estrutura multilateral voltada para a cooperação naquela região.

Tudo isso tem visto aplicações práticas, como a reativação da Segunda Frota da Marinha dos EUA, dedicada ao Atlântico Norte e ao Ártico, bem como a revitalização da base dos EUA em Keflavik, na Islândia. 4 bilhões de dólares do orçamento estadunidense foram dedicados para aprimorar as capacidades árticas dos EUA.

O que é peculiar, porém, é que todos esses esforços passados foram empreendidos em coordenação com esforços análogos do Canadá e dos aliados escandinavos. Agora, porém, os EUA atuam de forma contrária ou mesmo oposta aos seus antigos aliados, aparentemente não mais acreditando num controle compartilhado do Ártico.

Mais do que interessados em petróleo e gás, os EUA parecem querer transformar a Groenlândia como um todo numa plataforma militar, repleta de bases e voltada, no longo prazo, contra a Rússia, a qual já vinha respondendo a esses esforços ocidentais de militarização do Ártico com a sua própria revitalização de antigos ativos militares soviéticos, bem como com o reforço da Frota Setentrional.

Trump nem mesmo precisa realmente tornar-se “proprietário” da ilha para alcançar esse objetivo, de modo que o objetivo do Deep State se cumpre desde que simplesmente a Dinamarca aceite ceder partes do território groenlandês, especialmente ao norte, para os EUA.

Com os eventos transcorrendo dessa forma, é plausível que o Ártico torne-se, na verdade, uma das zonas mais “quentes” do mundo na década de 30 desse novo século.

É plausível que o Ártico torne-se, na verdade, uma das zonas mais “quentes” do mundo na década de 30 desse novo século.

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Sejamos sinceros: não fazemos a menor ideia sobre como terminará essa “novela” das tensões entre EUA e Europa pela Groenlândia. Considerando o histórico errático de Trump, tudo isso pode acabar não resultando em absolutamente em nada, ou os EUA podem acabar simplesmente usando fuzileiros navais e paraquedistas para ocupar a grande ilha setentrional. Ou, mais moderadamente, de fato comprando o lugar, ou ainda pelo menos fechando um acordo cedendo o uso de partes da ilha.

Aquilo de que podemos ter certeza, porém, é que o interesse de Trump pela Groenlândia não é fruto de um surto, mera húbris ou simplesmente ódio à Europa. Existe uma clara lógica geopolítica por trás desse interesse, e ela diz respeito a um dos próximos cenários potenciais de conflito planetário.

A dimensão mais óbvia do interesse pela Groenlândia se funda propriamente na atualização trumpista da Doutrina Monroe. Quando a Doutrina Monroe foi, primeiro, desenvolvida, ainda que abstratamente ela fosse uma declaração de intenções de expulsão da Europa das Américas, seu alvo principal era a Espanha e suas possessões remanescentes no hemisfério ocidental.

Conforme a Doutrina Monroe já vinha sendo retomada sob o governo Biden, parecia autoevidente que ela estaria dirigida contra os vínculos russo-chineses de vários países da região. Claramente não era esperado, porém, que a dimensão antieuropeia da Doutrina Monroe ainda permanecesse em vigor. Os EUA, agora é óbvio, pretendem dar continuidade à remoção da presença europeia das Américas. Isso foi muito bem notado pelo francês Jordan Bardella, atual presidente do Rassemblement National, que num discurso recente ressaltou que se os EUA tomassem a Groenlândia da Dinamarca, em breve poderia ser a vez de territórios franceses (como a Guiana Francesa, Martinica, Guadalupe, Saint Barthélemy, Saint Martin e Saint Pierre & Miquelon.

Mas existe uma especificidade na Groenlândia que transcende a pauta da Doutrina Monroe: a sua posição nas cercanias do Ártico.

Os fluxos climáticos que, contemporaneamente, estão levando a um parcial degelo da Zona Ártica estão abrindo a potencialidade de novas rotas comerciais alternativas às tradicionais. Também sabemos que o lugar, supostamente, abrigaria 13% das reservas ainda não descobertas de petróleo, bem como 30% das de gás, além de ouro, rubis, diamantes, zinco, ferro, cobre, terras raras e muito urânio no subsolo da maior ilha do mundo.  Mais subestimado, mas não menos importante, é o fato de que o aquecimento das águas setentrionais têm atraído cardumes de peixes, o que tem implicações para a pesca.

Naturalmente, não se pode olvidar o interesse estratégico do Ártico como possível área de trajetória de mísseis dirigidos contra outros inimigos situados no Hemisfério Norte do planeta. O Ártico oferece uma rota mais curta para hipotéticos ataques intercontinentais.

Quem parece ter se apercebido pioneiramente do potencial inexplorado do Ártico parece ter sido a Rússia, que começou um longo processo de revitalização, reforma, atualização e construção de infraestrutura civil-comercial das suas áreas setentrionais mais próximas à região. Moscou aumentou também a atividade de navios quebra-gelo, visando abrir uma nova rota marítima alternativa à do Mar Negro, tornada mais insegura pelo contexto regional da operação militar especial. As primeiras iniciativas russas em relação ao Ártico foram, porém, majoritariamente de teor civil e comercial, e se comunicam com o projeto chinês de uma Rota da Seda Polar, envolvendo também a Coreia do Norte.

A resposta ocidental veio com a militarização da Zona Ártica.

Já em 2020, Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Nova Zelândia, Noruega e Suécia assinaram o acordo do Programa de Pesquisa Polar Cooperativa Internacional, o qual aponta para uma abordagem multidisciplinar visando a plena investigação e ocupação de todo o Ártico. Alguns desses países também vem fazendo investimentos pesados no desenvolvimento de novas tecnologias para facilitar a exploração da região. No ano de 2021, o Pentágono publicava a sua estratégia para o Ártico, envolvendo o treinamento de unidades militares especializadas para atuar na região. Em 2022, usando como justificativa a operação militar especial, esses países abandonaram o Conselho do Ártico, uma estrutura multilateral voltada para a cooperação naquela região.

Tudo isso tem visto aplicações práticas, como a reativação da Segunda Frota da Marinha dos EUA, dedicada ao Atlântico Norte e ao Ártico, bem como a revitalização da base dos EUA em Keflavik, na Islândia. 4 bilhões de dólares do orçamento estadunidense foram dedicados para aprimorar as capacidades árticas dos EUA.

O que é peculiar, porém, é que todos esses esforços passados foram empreendidos em coordenação com esforços análogos do Canadá e dos aliados escandinavos. Agora, porém, os EUA atuam de forma contrária ou mesmo oposta aos seus antigos aliados, aparentemente não mais acreditando num controle compartilhado do Ártico.

Mais do que interessados em petróleo e gás, os EUA parecem querer transformar a Groenlândia como um todo numa plataforma militar, repleta de bases e voltada, no longo prazo, contra a Rússia, a qual já vinha respondendo a esses esforços ocidentais de militarização do Ártico com a sua própria revitalização de antigos ativos militares soviéticos, bem como com o reforço da Frota Setentrional.

Trump nem mesmo precisa realmente tornar-se “proprietário” da ilha para alcançar esse objetivo, de modo que o objetivo do Deep State se cumpre desde que simplesmente a Dinamarca aceite ceder partes do território groenlandês, especialmente ao norte, para os EUA.

Com os eventos transcorrendo dessa forma, é plausível que o Ártico torne-se, na verdade, uma das zonas mais “quentes” do mundo na década de 30 desse novo século.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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