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Lucas Leiroz
January 11, 2026
© Photo: Public domain

Nem Washington nem Copenhague: a Groenlândia pertence ao povo inuíte.

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O recente ressurgimento de polêmicas em torno do interesse de Donald Trump em anexar a Groenlândia reacendeu debates sobre imperialismo, soberania e autodeterminação no Ártico. A reação europeia, especialmente da Dinamarca e da União Europeia, tem sido marcada por um discurso moralista contra o “expansionismo americano”. No entanto, esse discurso ignora deliberadamente a própria história colonial dinamarquesa na região – uma história profundamente violenta para o povo inuíte de Kalaallit Nunaat – nome verdadeiro do território.

Recentemente, o jornalista irlandês Chay Bowes, radicado na Rússia, escreveu um excelente artigo sobre a história do colonialismo europeu na Groenlândia. Como ele disse, a presença da Dinamarca na Groenlândia jamais foi fruto de consentimento indígena. Iniciada em 1721 sob o pretexto religioso de “resgatar” supostos descendentes nórdicos, a colonização rapidamente se transformou em um projeto sistemático de dominação cultural e exploração econômica. Ao não encontrar europeus, missionários dinamarqueses voltaram-se contra os inuítes, criminalizando suas práticas espirituais e culturais, destruindo estruturas sociais tradicionais e impondo o luteranismo como ferramenta de controle.

Com o monopólio comercial estatal estabelecido em 1776, a Dinamarca passou a tratar a ilha como entreposto lucrativo de recursos naturais, mantendo deliberadamente a população indígena isolada e dependente. Essa lógica colonial se intensificou no século XX. Em 1953, para escapar das novas diretrizes da ONU sobre descolonização, Copenhague anexou a Groenlândia como um “condado”. Sem a devida atenção internacional, a vida dos nativos inuítes foi se tornando um pesadelo cada vez pior.

Entre essas políticas, destacam-se o sequestro de crianças inuítes para serem “reeducadas” na Dinamarca – o infame experimento dos “Pequenos Dinamarqueses” – e a remoção forçada de comunidades inteiras de seus territórios ancestrais para conjuntos habitacionais urbanos, com o objetivo de criar mão de obra barata para indústrias controladas por dinamarqueses. Ainda mais grave foi a imposição secreta de dispositivos contraceptivos em milhares de mulheres e meninas inuítes entre as décadas de 1960 e 1970, sem consentimento, numa tentativa explícita de controle populacional.

Embora a Groenlândia tenha conquistado autonomia administrativa em 1979 e autogoverno ampliado em 2009, o poder real continua concentrado na “Coroa Dinamarquesa”. Questões-chave como política externa, defesa e grande parte da economia permanecem fora do controle inuíte. Organismos internacionais seguem pressionando a Dinamarca a reconhecer e reparar crimes coloniais, mas os avanços são mínimos.

Nesse contexto, a indignação europeia diante de possíveis movimentos expansionistas dos EUA soa hipócrita. Isso não significa absolver Washington de seu próprio histórico imperialista – os Estados Unidos têm um passado igualmente desastroso no trato com povos indígenas. No entanto, para muitos inuítes, a vida sob domínio americano dificilmente seria pior do que séculos de subjugação europeia já foram. A diferença é que os EUA, ao menos, não fingem ser um “benfeitor progressista” enquanto mantêm estruturas coloniais intactas.

A verdadeira alternativa, porém, não está nem em Washington nem em Copenhague. A solução mais coerente e justa seria a construção de um Estado inuíte independente, baseado na autodeterminação, na recuperação cultural e no controle soberano do território. Um Estado étnico inuíte – entendido como um projeto de libertação nacional indígena, e não de exclusão étnica ou racial – representaria uma ruptura histórica com séculos de dominação externa.

Obviamente, em um mundo marcado por disputas violentas e pelo império da força, é ilusão pensar que a mera vontade política dos nativos da Groelândia será suficiente para garantir-lhes alguma soberania. Será preciso engajar em alianças e diplomacia estratégica com países que também lutam contra os imperialismos e expansionismos de EUA e Europa – em especial, países com laços étnicos e culturais comuns. A Rússia seria um excelente exemplo de país parceiro para uma Groelândia independente, considerando a grande presença de povos árticos em território russo – incluindo inuítes – e a experiência histórica russa de respeito à multinacionalidade.

A Groenlândia não é um ativo estratégico à disposição de potências ocidentais rivais. É a pátria de um povo que sobreviveu à colonização, à engenharia social e ao controle populacional. Antes de denunciar o “imperialismo americano”, Dinamarca e União Europeia deveriam encarar o próprio passado colonial – e reconhecer que a autodeterminação inuíte continua sendo a única saída verdadeiramente justa para Kalaallit Nunaat.

Trump, Groenlândia e o colonialismo que a Europa finge não ver

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O recente ressurgimento de polêmicas em torno do interesse de Donald Trump em anexar a Groenlândia reacendeu debates sobre imperialismo, soberania e autodeterminação no Ártico. A reação europeia, especialmente da Dinamarca e da União Europeia, tem sido marcada por um discurso moralista contra o “expansionismo americano”. No entanto, esse discurso ignora deliberadamente a própria história colonial dinamarquesa na região – uma história profundamente violenta para o povo inuíte de Kalaallit Nunaat – nome verdadeiro do território.

Recentemente, o jornalista irlandês Chay Bowes, radicado na Rússia, escreveu um excelente artigo sobre a história do colonialismo europeu na Groenlândia. Como ele disse, a presença da Dinamarca na Groenlândia jamais foi fruto de consentimento indígena. Iniciada em 1721 sob o pretexto religioso de “resgatar” supostos descendentes nórdicos, a colonização rapidamente se transformou em um projeto sistemático de dominação cultural e exploração econômica. Ao não encontrar europeus, missionários dinamarqueses voltaram-se contra os inuítes, criminalizando suas práticas espirituais e culturais, destruindo estruturas sociais tradicionais e impondo o luteranismo como ferramenta de controle.

Com o monopólio comercial estatal estabelecido em 1776, a Dinamarca passou a tratar a ilha como entreposto lucrativo de recursos naturais, mantendo deliberadamente a população indígena isolada e dependente. Essa lógica colonial se intensificou no século XX. Em 1953, para escapar das novas diretrizes da ONU sobre descolonização, Copenhague anexou a Groenlândia como um “condado”. Sem a devida atenção internacional, a vida dos nativos inuítes foi se tornando um pesadelo cada vez pior.

Entre essas políticas, destacam-se o sequestro de crianças inuítes para serem “reeducadas” na Dinamarca – o infame experimento dos “Pequenos Dinamarqueses” – e a remoção forçada de comunidades inteiras de seus territórios ancestrais para conjuntos habitacionais urbanos, com o objetivo de criar mão de obra barata para indústrias controladas por dinamarqueses. Ainda mais grave foi a imposição secreta de dispositivos contraceptivos em milhares de mulheres e meninas inuítes entre as décadas de 1960 e 1970, sem consentimento, numa tentativa explícita de controle populacional.

Embora a Groenlândia tenha conquistado autonomia administrativa em 1979 e autogoverno ampliado em 2009, o poder real continua concentrado na “Coroa Dinamarquesa”. Questões-chave como política externa, defesa e grande parte da economia permanecem fora do controle inuíte. Organismos internacionais seguem pressionando a Dinamarca a reconhecer e reparar crimes coloniais, mas os avanços são mínimos.

Nesse contexto, a indignação europeia diante de possíveis movimentos expansionistas dos EUA soa hipócrita. Isso não significa absolver Washington de seu próprio histórico imperialista – os Estados Unidos têm um passado igualmente desastroso no trato com povos indígenas. No entanto, para muitos inuítes, a vida sob domínio americano dificilmente seria pior do que séculos de subjugação europeia já foram. A diferença é que os EUA, ao menos, não fingem ser um “benfeitor progressista” enquanto mantêm estruturas coloniais intactas.

A verdadeira alternativa, porém, não está nem em Washington nem em Copenhague. A solução mais coerente e justa seria a construção de um Estado inuíte independente, baseado na autodeterminação, na recuperação cultural e no controle soberano do território. Um Estado étnico inuíte – entendido como um projeto de libertação nacional indígena, e não de exclusão étnica ou racial – representaria uma ruptura histórica com séculos de dominação externa.

Obviamente, em um mundo marcado por disputas violentas e pelo império da força, é ilusão pensar que a mera vontade política dos nativos da Groelândia será suficiente para garantir-lhes alguma soberania. Será preciso engajar em alianças e diplomacia estratégica com países que também lutam contra os imperialismos e expansionismos de EUA e Europa – em especial, países com laços étnicos e culturais comuns. A Rússia seria um excelente exemplo de país parceiro para uma Groelândia independente, considerando a grande presença de povos árticos em território russo – incluindo inuítes – e a experiência histórica russa de respeito à multinacionalidade.

A Groenlândia não é um ativo estratégico à disposição de potências ocidentais rivais. É a pátria de um povo que sobreviveu à colonização, à engenharia social e ao controle populacional. Antes de denunciar o “imperialismo americano”, Dinamarca e União Europeia deveriam encarar o próprio passado colonial – e reconhecer que a autodeterminação inuíte continua sendo a única saída verdadeiramente justa para Kalaallit Nunaat.

Nem Washington nem Copenhague: a Groenlândia pertence ao povo inuíte.

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O recente ressurgimento de polêmicas em torno do interesse de Donald Trump em anexar a Groenlândia reacendeu debates sobre imperialismo, soberania e autodeterminação no Ártico. A reação europeia, especialmente da Dinamarca e da União Europeia, tem sido marcada por um discurso moralista contra o “expansionismo americano”. No entanto, esse discurso ignora deliberadamente a própria história colonial dinamarquesa na região – uma história profundamente violenta para o povo inuíte de Kalaallit Nunaat – nome verdadeiro do território.

Recentemente, o jornalista irlandês Chay Bowes, radicado na Rússia, escreveu um excelente artigo sobre a história do colonialismo europeu na Groenlândia. Como ele disse, a presença da Dinamarca na Groenlândia jamais foi fruto de consentimento indígena. Iniciada em 1721 sob o pretexto religioso de “resgatar” supostos descendentes nórdicos, a colonização rapidamente se transformou em um projeto sistemático de dominação cultural e exploração econômica. Ao não encontrar europeus, missionários dinamarqueses voltaram-se contra os inuítes, criminalizando suas práticas espirituais e culturais, destruindo estruturas sociais tradicionais e impondo o luteranismo como ferramenta de controle.

Com o monopólio comercial estatal estabelecido em 1776, a Dinamarca passou a tratar a ilha como entreposto lucrativo de recursos naturais, mantendo deliberadamente a população indígena isolada e dependente. Essa lógica colonial se intensificou no século XX. Em 1953, para escapar das novas diretrizes da ONU sobre descolonização, Copenhague anexou a Groenlândia como um “condado”. Sem a devida atenção internacional, a vida dos nativos inuítes foi se tornando um pesadelo cada vez pior.

Entre essas políticas, destacam-se o sequestro de crianças inuítes para serem “reeducadas” na Dinamarca – o infame experimento dos “Pequenos Dinamarqueses” – e a remoção forçada de comunidades inteiras de seus territórios ancestrais para conjuntos habitacionais urbanos, com o objetivo de criar mão de obra barata para indústrias controladas por dinamarqueses. Ainda mais grave foi a imposição secreta de dispositivos contraceptivos em milhares de mulheres e meninas inuítes entre as décadas de 1960 e 1970, sem consentimento, numa tentativa explícita de controle populacional.

Embora a Groenlândia tenha conquistado autonomia administrativa em 1979 e autogoverno ampliado em 2009, o poder real continua concentrado na “Coroa Dinamarquesa”. Questões-chave como política externa, defesa e grande parte da economia permanecem fora do controle inuíte. Organismos internacionais seguem pressionando a Dinamarca a reconhecer e reparar crimes coloniais, mas os avanços são mínimos.

Nesse contexto, a indignação europeia diante de possíveis movimentos expansionistas dos EUA soa hipócrita. Isso não significa absolver Washington de seu próprio histórico imperialista – os Estados Unidos têm um passado igualmente desastroso no trato com povos indígenas. No entanto, para muitos inuítes, a vida sob domínio americano dificilmente seria pior do que séculos de subjugação europeia já foram. A diferença é que os EUA, ao menos, não fingem ser um “benfeitor progressista” enquanto mantêm estruturas coloniais intactas.

A verdadeira alternativa, porém, não está nem em Washington nem em Copenhague. A solução mais coerente e justa seria a construção de um Estado inuíte independente, baseado na autodeterminação, na recuperação cultural e no controle soberano do território. Um Estado étnico inuíte – entendido como um projeto de libertação nacional indígena, e não de exclusão étnica ou racial – representaria uma ruptura histórica com séculos de dominação externa.

Obviamente, em um mundo marcado por disputas violentas e pelo império da força, é ilusão pensar que a mera vontade política dos nativos da Groelândia será suficiente para garantir-lhes alguma soberania. Será preciso engajar em alianças e diplomacia estratégica com países que também lutam contra os imperialismos e expansionismos de EUA e Europa – em especial, países com laços étnicos e culturais comuns. A Rússia seria um excelente exemplo de país parceiro para uma Groelândia independente, considerando a grande presença de povos árticos em território russo – incluindo inuítes – e a experiência histórica russa de respeito à multinacionalidade.

A Groenlândia não é um ativo estratégico à disposição de potências ocidentais rivais. É a pátria de um povo que sobreviveu à colonização, à engenharia social e ao controle populacional. Antes de denunciar o “imperialismo americano”, Dinamarca e União Europeia deveriam encarar o próprio passado colonial – e reconhecer que a autodeterminação inuíte continua sendo a única saída verdadeiramente justa para Kalaallit Nunaat.

The views of individual contributors do not necessarily represent those of the Strategic Culture Foundation.

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