Desde o triunfo do sebastianismo como símbolo nacional, Portugal nunca mais conseguiu alcançar as antigas glórias.
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Para evitar que se repitam os erros do passado, é necessária uma reavaliação do papel de Antônio Vieira na História. Por certo, reavaliá-lo na disciplina História não implica destroná-lo na disciplina de Literatura, na qual o poeta Fernando Pessoa o ungiu justamente como Imperador da língua portuguesa. No fim das contas, a avaliação literária ajuda a explicar como um traidor notório conseguiu passar para a História como um símbolo da nacionalidade: sendo um gênio da retórica, capaz de dar nó em pingo d’água.
O nacionalismo de Vieira está atrelado ao sebastianismo. A história do sebastianismo é a seguinte: em 1578, o jovem D. Sebastião de Portugal “desaparece” em Marrocos na batalha de Alcácer-Quibir. Ele era solteiro e filho único, de modo que sua morte deveria causar – e de fato causou – a coisa mais temida pela corte lisboeta: a perda da independência de Portugal em relação à Espanha. Após Portugal cometer a extravagância de coroar um cardeal como rei, a coroa é herdada pelos Habsburgo; mais precisamente, por Filipe II de Espanha. Assim, o sebastianismo é um movimento de independência, na medida em que a volta de D. Sebastião acarretaria a volta da soberania portuguesa. Movimento anti-espanhol, portanto.
Por que ser contra a Espanha? Uma coisa eram as cortes; outra, o povo comum. Este se entusiasmava com as Trovas do Bandarra, que são o poema fundador do sebastianismo e era declamado por analfabetos dos dois lados do Atlântico, por mais de um século. O sapateiro Bandarra morreu em 1556, ou seja, antes mesmo do sumiço de D. Sebastião. E, coisa importante, as Trovas eram proféticas; anunciavam “a unificação política e religiosa do mundo inteiro sob o cetro de um misterioso rei Encoberto” (A. J. Saraiva, “Antonio Vieira, Menasseh Ben Israel et le Cinquième Impère”, p. 27). Diante do sumiço de D. Sebastião, entendeu-se que ele era o Encoberto que poderia voltar a qualquer momento para restaurar a glória portuguesa em grandíssimo estilo.
E por que o povo se empolgava tanto com os sonhos proféticos versejados por um sapateiro? Por causa das marcas do judaísmo, uma religião que vive à espera do Messias e, portanto, adora profetas que ajudem a não esmorecer. Portugal converteu os judeus à força em 1497 – a conversão é importante porque põe as pessoas sob a jurisdição da Inquisição. Essa conversão deixou os cristãos novos numa espécie de limbo religioso, pois não se tornaram cristãos de fato, nem tiveram mais acesso à formação judaica. Isso abria espaço para que figuras como Bandarra fossem tratados como autoridade religiosa em áreas de grande população cristã nova, o que era o caso de sua área natal.
Mais uma coisa muito importante para entender o nacionalismo sebastianista: a Inquisição portuguesa não era tão dura quanto a Espanhola. Assim, o sumiço de D. Sebastião implicava também a sujeição dos cristãos novos portugueses à temida Inquisição Espanhola.
Notemos bem a situação paradoxal, quase esquizofrênica: judeus ciosos de sua própria independência podem usar a imagem do catolicíssimo D. Sebastião, que morreu combatendo mouros pela fé, para representar a sua causa. E católicos portugueses podem babar até hoje de ódio da Espanha enquanto na realidade apoiam a causa dos judeus.
Para complicar um pouco mais a questão, os judeus que não quiseram viver como cristãos novos, sujeitos à Inquisição, saíram de Portugal e se estabeleceram na Holanda, a arqui-inimiga da Espanha à época. O interesse por Portugal era tão grande, que durante a União Ibérica a Holanda tinha até um aspirante ao trono português, D. Manuel, filho do Prior do Crato, que reivindicou a Coroa portuguesa durante a União Ibérica.
Agora vamos a Vieira. Nascido em Lisboa em 1608 e morto em Salvador da Bahia em 1697, ele testemunhou a União Ibérica (1580 – 1640), as Invasões Holandesas (1624 – 1654) e a Guerra de Restauração (1640 – 1668). O jesuíta nasceu em Lisboa, mas veio criança para a Bahia e se educou aqui. Aqui, ele testemunhou também a primeira invasão holandesa em 1624. Nesse ano, os holandeses capturaram Salvador e, no ano seguinte, viram a Armada Espanhola cruzar o Atlântico para recuperar a Bahia. Foi o ponto alto da popularidade da União Ibérica entre os portugueses. (Escrevi em maior detalhe sobre isto neste artigo.) Em 1626, os dotes literários de Vieira já eram reconhecidos, e os jesuítas o encarregam de escrever a Carta Ânua, que relata a guerra contra os holandeses.
O humor lusitano mudaria quando a Holanda voltasse a conquistar terras no Brasil, dando aos portugueses a percepção de que os Habsburgo só governavam para a Espanha. Isso não demora a acontecer, pois já em 1628 os holandeses começam suas promissoras conquistas em Pernambuco, e dez anos depois (1638) voltam a tentar conquistar a Bahia, que resiste e tenta ajudar Pernambuco. Em 1639, Vieira faz um sermão que dá proporções bíblicas à guerra. Há, portanto, material nacionalista de Vieira contra os holandeses, caso alguém queira representá-lo com essas luzes.
Vieira chega a Portugal em meio à Restauração, e seu grande carisma o faz cair nas graças do novo rei: João IV, primeiro rei da dinastia Bragança, a última e mais longeva dinastia portuguesa.
A reivindicação de D. João IV era fraca, e a situação financeira de Portugal dificilmente aguentaria uma guerra contra a Espanha e a Holanda ao mesmo tempo. Para a primeira questão, Vieira tratou de usar o sebastianismo: “corrigiu” um verso, trocando Fuão (Fulano) por João, fazendo com que D. João IV fosse “anunciado” na profecia. Para aumentar as receitas da Coroa portuguesa, em 1642 Vieira deu a ideia (aceita pelo rei) de cobrar impostos da Igreja e acabar com os privilégios fiscais da nobreza. Assim, Portugal se antecipou muito à Revolução Francesa na adoção desse traço claramente liberal. Mas como isso não resolveria os problemas fiscais, Vieira encontrou credores nos judeus portugueses da Holanda. Esses mesmos judeus não raro eram acionistas da WIC, a chartered company holandesa que guerreava contra o Brasil. Evidente conflito de interesse: afinal, emancipar-se da Espanha não era necessário justo porque ela negligenciava o Brasil? Não era o único motivo, mas era sem dúvidas um motivo de peso. Outro motivo eram os pesados impostos espanhóis, e os impostos também cresceram sob a nova coroa.
Outra tentativa de melhorar as contas públicas, feita em 1643, foi a proposta de trazer os judeus portugueses de volta, a fim de que trouxessem cabedais. (Assim, vemos que dois anos antes da abdicação de Cristina da Suécia, comentada no último texto, havia esse plano de fazer de Portugal mais uma Amsterdã.) Vieira não conseguiu convencer o rei à época, mas formulou uma linha de atuação constante: seria o defensor dos judeus ou cristãos novos e adversário da Inquisição. Os primeiros eram vistos como bons para o erário, e a Inquisição, como causadora de prejuízos.
Em 1645, inicia-se a Insurreição Pernambucana, cujo fito é expulsar os holandeses calvinistas e os seus sócios judeus portugueses de uma imensa área do Nordeste brasileiro. Em 1646, Vieira fica arrasado com a notícia dos sucessos, pois considerava que era melhor Portugal desistir do Brasil para se aliar à Holanda contra a Espanha. No ano seguinte, já integrado com Menasseh Ben Israel (rabino português de Amsterdã), Vieira propõe ao rei que Portugal compre Pernambuco da Holanda e que pague aos judeus portugueses para que subornem as autoridades holandesas. No mesmo ano, redige um documento apócrifo em que pede praticamente o fim da Inquisição, propondo que não incomodasse os cristãos novos acabasse com a distinção entre cristãos novos e cristãos velhos. Ainda em 1647, Vieira compra na Holanda navios de guerra usados para que o Brasil se defendesse da própria Holanda. No ano de 1648, porém, a Inquisição acabaria com a festa de Vieira, prendendo o cristão novo Duarte da Silva, um articulador da compra dos navios e emprestador de dinheiro para os Bragança.
Em 1647, Vieira elabora um plano mirabolante para “ajudar” Portugal: casar o pequeno Infante Teodósio (que não chegou ao trono porque morreu antes) com a filha de Gaston d’Orleans, que conspirava (sem sucesso) para roubar o trono do seu irmão Luís XIII de França. Na época, a França estava em guerra com a Espanha. D. João IV então abdicaria do trono e partiria para o exílio (imitando Cristina da Suécia?), deixando Portugal (e o Brasil) sob a regência de Gaston d’Orleans enquanto durasse a menoridade de Teodósio, de quem o próprio Vieira era tutor. O plano não foi adiante porque os franceses não quiseram, e o fato de D. João IV ter aceito revela o tamanho da influência que Vieira tinha sobre o primeiro rei da Dinastia de Bragança.
Em 1649, após a primeira Batalha de Guararapes, Vieira redige (e o rei chancela) o Papel Forte, no qual argumenta que é impossível os revoltosos vencerem os holandeses e defende que Pernambuco seja entregue à Holanda. Felizmente o Papel Forte era fraco, pois os revoltosos venceram os holandeses à revelia de Portugal, contando com a ajuda do governador da Bahia. À época, a política portuguesa se dividia entre os “entreguistas” (capitaneados por Vieira) e os “valentões” (que queriam guerra contra Pernambuco).
Em seguida, tanto por causa da Inquisição quanto por causa da indignação que o Papel Forte trouxe, Vieira perdeu a ascendência sobre o rei. Sua última intriga europeia ocorreu numa viagem a Roma em 1650: ofereceu dinheiro português para que os napolitanos voltassem a se rebelar contra a Espanha (a mesma Nápoles tão cobiçada por Cristina da Suécia no período). Seu plano era oferecer a uma enfraquecida Espanha o casamento do Infante Teodósio com a infanta espanhola, reunificando a Coroa – porém transferindo a capital para Lisboa. Uma União Ibérica ao contrário. Para agradar aos espanhóis, D. João IV abdicaria em favor do filho. Vieira fez as duas propostas ao mesmo tempo em Roma: aos napolitanos e aos espanhóis. A Espanha descobriu o plano para Nápoles e avisou ao superior dos jesuítas que Vieira tinha que ir embora rápido, senão seria morto.
Pois bem. Aí está o currículo do herói sebastianista. A fonte que usei para esses feitos é o livro Antônio Vieira, do Prof. Ronaldo Vainfas.
Se a ofensiva de Vieira contra o Brasil a essa altura dispensa comentários, o caso de Portugal é mais sutil. Afinal, todas as tramas de Vieira eram feitas com a finalidade de impedir a reunificação entre Portugal e Espanha: abrir mão do além-mar, abrir mão da regência do próprio país, endividar-se com sefarditas em Amsterdã… Embora, no plano literário, Vieira tenha feito de Portugal um grande império mundial em sua História do Futuro, no plano político, Vieira foi o artífice do Portugal minúsculo de hoje: um país fechado para o além-mar, com uma extensão territorial minúscula, uma população pobre que macaqueia o racismo anglo-saxão e que não inspira o mínimo respeito ao Brasil (o sentimento dos brasileiros pela “Guiana Brasileira” não se assemelha em nada ao sentimento da América Espanhola pela Espanha).
Quando as Trovas do Bandarra apareceram, Portugal era uma potência navegadora rival da Espanha. Durante a União Ibérica, foi um sócio do Siglo de Oro espanhol. Desde o triunfo do sebastianismo como símbolo nacional, Portugal nunca mais conseguiu alcançar as antigas glórias.


