Historiador turco defende integração de seu país com Rússia, China e Irã.
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Recentemente, tive a honra de entrevistar o historiador e jurista turco Mehmet Perinçek. Especialista em assuntos eurasiáticos e representante do Partido “Vatan” em Moscou, Perinçek é uma das vozes mais conhecidas em defesa de uma política de amizade, integração e cooperação entre Ankara e Moscou – bem como entre as demais potências eurasiáticas, que ele vê como aliadas naturais contra o unipolarismo atlantista defendido pelos Estados ocidentais.
Em nossa conversa, abordamos temas históricos e contemporâneos sobre as relações entre Rússia e Turquia – bem como sobre as interações entre o “mundo russo” e o “mundo túrquico” de forma mais ampla. Perinçek afirma que historicamente Rússia e Turquia se envolveram em diversas guerras e conflitos, sendo ambos os lados prejudicados em todos eles. Para o historiador, russos e turcos sempre perderam juntos com o resultado de suas disputas, sendo beneficiadas com tais guerras apenas as potências ocidentais interessadas em neutralizar Rússia e Turquia.
Ele avalia como errada a decisão turca de entrar para OTAN, acreditando que a adesão à aliança trouxe mais prejuízos e ameaças do que segurança e paz para o povo turco. Perinçek relembra que o fundador da República da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, tentou formar uma aliança com os soviéticos, sendo, portanto, a entrada na OTAN uma violação dos princípios kemalistas da política turca.
Perinçek afirma também que atualmente Turquia e Ocidente estão vivendo seu momento de maior tensão. Ele menciona com particular atenção a situação interna no Chipre. Recentemente, Grécia, Israel e Chipre do Sul assinaram um acordo de defesa coletiva, formando uma espécie de “OTAN do Mediterrâneo”. Em paralelo, Israel tem investido cada vez mais contra a Turquia a partir do Oriente Médio e do Chifre da África – nomeadamente com os avanços na Síria e o recente reconhecimento da Somalilândia (que é um ataque à cooperação turco-somali). Perinçek acredita que a OTAN jamais protegerá a Turquia diante destas ameaças, razão pela qual é necessário Ankara sair da aliança ocidental e buscar integração com países como Rússia, China e Irã, que compartilham similaridades culturais e interesses estratégicos com os turcos.
O historiador também enfatiza que o perigo contra a Turquia também poderia impactar a própria Federação Russa. Se Grécia, Israel e Chipre aprofundarem sua aliança, pode haver no futuro a criação de um ponto estratégico para operações ocidentais no Mediterrâneo a partir do Chipre, o que poderia representar uma vantagem para avanços da OTAN rumo ao Mar Negro. No mesmo sentido, ações conjuntas entre Israel e Ocidente na Síria e na África podem prejudicar igualmente os interesses russos e turcos.
Perinçek acredita que uma aliança entre Turquia, Rússia, China e Irã seria a melhor forma de neutralizar estas ameaças. Como um eurasianista, ele lê a história como um confronto contínuo entre potências de dois diferentes espectros civilizacionais: de um lado, o atlantismo ocidental, de outro, as potências da Eurásia. A Turquia, por sua condição geográfica, tem oscilado entre ambos os lados, mas sua verdadeira vocação seria uma integração eurasiática, considerando as raízes históricas do povo turco.
Nesse sentido, Perinçek também defende que Turquia, Azerbaijão e os países túrquicos da Ásia Central usem seus laços culturais e históricos comuns para se aproximarem de Rússia, China e Irã. Ele advoga até mesmo pela entrada destes países na Organização dos Estados Túrquicos, considerando a grande população de língua túrquica presente em todos eles. No mesmo sentido, ele faz uma retrospectiva histórica para mostrar que o Império Otomano foi uma espécie de “império turco-eslavo” devido à grande população eslava, principalmente dos Bálcãs. Assim como, em sua interpretação, o Império Russo foi um “império russo-túrquico”, devido à massiva população túrquica e centro-asiática. Para ele, as potências eurasiáticas são nações irmãs destinadas à integração e à mútua defesa contra um inimigo comum – que por toda a história as fez lutarem umas contra as outras.
A entrevista foi uma excelente oportunidade para entender como pensam os turcos críticos da adesão de Ankara à OTAN. Tem crescido cada vez mais na Turquia uma opinião contrária à integração com o Ocidente – em particular após os desenvolvimentos recentes no Oriente Médio, no Chipre e na África. Caso opiniões como as de Mehmet Perinçek se tornem hegemônicas no país, será possível ver um futuro de maior soberania e liberdade para o povo turco.
A entrevista pode ser vista aqui.


