Preparemo-nos para ser avassalados por enxurradas de loas e hossanas aos 40 anos que passam sobre a integração forçada de Portugal na Comunidade Económica Europeia
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Ainda se ouvem os ecos das 12 badaladas, sempre muito enobrecidas pelo “anúncio do ano” em todas as televisões; ainda ressoam os estrondos das despropositadas trovoadas de fogos de artifício e já começaram as escutar-se as vozes de necrófilos e necrófagos que irão alimentar um tétrico coro durante os próximos 365 dias.
Preparemo-nos para ser avassalados por enxurradas de loas e hossanas aos 40 anos que passam sobre a integração forçada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, depois reciclada em União Europeia para reforço do nível de atrocidades, em especial o desaparecimento da moeda nacional e consequente submissão ao terrorismo do euro.
Integração forçada porque nesta espécie de democracia, a que chamam “liberal” para atacar cada vez mais os interesses populares, não houve o cuidado mínimo de perguntar aos cidadãos se aceitavam ou não que o país fosse integrado numa comunidade internacional, passo esse que tinha como contrapartida a perda de aspectos fundamentais da soberania nacional. Escondidos ou “explicados” com toques épicos de manipulação, mas existentes para quem não estivesse distraído.
Na sequência do golpe reaccionário e estrangeirado de 25 de Novembro de 1975 foram postos em prática vários métodos convergentes para enganar o povo em relação à integração europeia.
O poder não organizou qualquer referendo ou outra forma de consulta de opinião (que não sondagens) para dar capacidade democrática de decisão aos cidadãos sobre essa matéria transcendente para a soberania nacional.
Em relação a esta realidade insofismável, a classe política usurpadora da vontade popular costuma explicar que o assunto esteve implícito nos programas políticos e nas campanhas eleitorais para eleições parlamentares. Refinada mentira: as campanhas eleitorais não são períodos de esclarecimento, são feiras de vaidades, elegias ao bacoco, espectáculos medíocres com a profundidade mental de um talk-show tipo Big Brother ou – com um cariz familiar muito educativo no quadro doutrinário judaico-cristão – “A minha mãe com o teu pai”. Por isso, um tema que exigia uma pormenorizada clarificação, honesta e profícua, foi abordado pela rama e em termos propagandísticos, apresentado como a nova árvore das patacas capaz de fazer cada um de nós um rico, no mínimo um desafogado.
Os métodos usados para submeter o debate à enxurrada de mentiras que intoxica as campanhas eleitorais e para propagar as benesses associadas à integração no melhor dos mundos, foram reforçados por outra prática que se transformou num contexto obrigatório dentro da verdade única do regime: as pessoas ou as instituições que explicam, com factos concretos e inquestionáveis, as consequências nefastas da integração europeia são expostas no pelourinho reservado aos antipatriotas, aos antidemocratas, aos inimigos do progresso, aos totalitários, aos nacionalistas retintos. Esse comportamento assumido pelo regime militar, económico, político e social em vigor, reforçado através da faceta mistificadora, manipuladora e panfletária da comunicação social dominante, tornou-se um dogma que transforma em heréticos todos os que, racional e factualmente, se recusam a dizer ámen ao sagrado europeísmo.
O cenário irá agravar-se nestes dias em que começam a celebrar-se os 40 anos de vida de Portugal em versão União Europeia, uma caricatura de país que arrasta os restos mortais, atacado por uma cegueira suicida. Neste quadro de indigência assumida, a dignidade, a história, a cultura, as raízes e a própria língua de uma comunidade nacional quase milenar foram sacrificadas sem que a aliança de poder neoliberal/fascista pestanejasse. E um país que soube manter-se vivo no fio dos séculos – não discutamos agora alguns dos métodos usados – foi ofertado numa bandeja a um regime estrangeiro para servir de pasto a um sistema militarista, explorador, inculto e ignorante, racista e xenófobo, expansionista, intelectualmente doente e consolidado para usufruto do mercado, do dinheiro e do globalismo desumano – estado supremo do capitalismo neoliberal.
A realidade dramática que destrói o mito
A realidade, porém, é mais forte que o dogma. Daí a necessidade de o regime imposto em Lisboa (e mais 26 capitais) pelo sistema de poder transnacional de Bruxelas esconder a realidade nacional, substituindo-a por uma realidade virtual e paralela fabricada pela propaganda.
Dizer que a soberania de Portugal foi entregue, de mão beijada, a um regime federalista encapotado que se converteu de vez ao militarismo imperial parece não incomodar a generalidade dos portugueses. Uma grande maioria dos cidadãos, na verdade, não conhecem o que se passa e também não lhes é permitido saber que os principais poderes supostamente desempenhados pelos órgãos de soberania nacionais já foram transferidos para Bruxelas, quantas vezes à socapa.
Nesta “democracia liberal” as pessoas votam para um Parlamento, um governo e um chefe de Estado e, na realidade, estes só decidem e executam o que lhes é permitido decidir e executar pelos poderes sombrios que mexem os cordelinhos de instituições poderosas, não eleitas e totalitárias como a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Isto é, a maioria vota em pessoas e nas instituições A, B ou C (o “arco da governação”, incluindo a tara venturista) enquanto, lá longe, gente com rosto de euro ou dólar decide por elas, como se ninguém tivesse votado. A ditadura deixou, aparentemente, de ser bruta e sangrenta; refinou, tornou-se elegante, sofisticada, até “progressista”, embora a arbitrariedade e a exploração continuem a ser poder e o sangue humano não deixe de correr, se necessário, o que parece estar cada vez mais próximo. Até as “esquerdas” fofinhas e bem falantes, perdidas em algaraviadas oportunistas e graxistas para receberem festinhas do poder e da comunicação social, acham o federalismo fixe, capaz de democratizar a União Europeia e de a transformar numa bem aventurança para os cidadãos. Esse reaccionarismo engalanado com floreados de mentiras e propaganda bem construídas atinge, sobretudo, gente que vive nas cidades e se cultiva lendo e ouvindo a casta “de referência” e ama afagar os pobrezinhos sempre que chega o Natal e nos curtos intervalos deixados pelas febres do consumismo e as férias e fins de semana em paraísos exóticos.
Em Portugal existe um mapa informal que corresponde às atrocidades que foram (e ainda são) cometidas em território português pela CEE/União Europeia, com custos humanos e materiais incalculáveis. Esse mapa assinala as feridas ainda expostas e deixadas pelo terramoto arrasador que liquidou o tecido produtivo português e tornou o país refém dos altos e baixos do turismo e consequente transmutação alienante do estilo de vida de vastas canadas da sociedade portuguesa. Além de igualmente refém de importações, chegadas de todo o mundo, de produtos que eram fabricados e cultivados, com altíssima qualidade, em Portugal e pelos trabalhadores portugueses.
A tragédia tornou-se real a partir 1986, ano da integração na CEE, quando se dizia que chovia dinheiro europeu do qual todos iríamos tirar proveito. O tiro de partida, como atrás se escreveu, fora dado em 25 de Novembro de 1975 mas, militarmente e politicamente, a integração europeia veio reforçar os objectivos do golpe, não apenas para tentar liquidar os desenvolvimentos genuinamente democráticos tornados possíveis a partir de 25 de Abril de 1974, mas também para implantar os mecanismos repressivos e paraditatoriais talhados com o objectivo de impedir quaisquer correcções de rota ditadas pela vontade democrática e popular.
Em sectores de produção considerados essenciais para a sobrevivência dos portugueses, como o dos cereais, a comparação entre os números decorrentes da integração europeia e, por exemplo, os dos tempos da amaldiçoada Reforma Agrária não mentem. Em 1976, depois da Novembrada mas ainda antes da guerra aberta contra a Reforma Agrária, Portugal conseguia produzir três quartos dos cereais que consumia, pelo que importava um quarto do total necessário. Portugal “não era autosuficiente em pão”, dizia-se então, como um libelo acusatório contra uma das maiores conquistas da Revolução de Abril.
No ano de 1986, e apesar das malfeitorias iniciadas nos governos constitucionais de Mário Soares – quando a Reforma Agrária estava muito ferida mas não extinta – Portugal ainda produzia 60 por cento dos cereais que consumia, pelo que importava 40 por cento.
Pois 40 anos depois do início da integração europeia, aplicada a preceito a famosa “política agrícola comum”, Portugal consegue produzir cerca de 18 por cento dos cereais que consome. Isto é, tem de importar 82 por cento, pouco menos que a totalidade. Obrigado Soares, Cavaco, Guterres, Sócrates, Barroso, Santana, Coelho, Costa e Montenegro, eis no que transformaram os “celeiros de Portugal”, a começar pelo generoso Alentejo, ao rastejarem perante a UE/CEE.
Volta a Portugal em ruínas
Mas há matéria física, imune a qualquer propaganda virtuosa, que exibe os desmandos da integração europeia. Se, por uma vez na vida, o leitor fizer uma viagem em que ponha de lado as belezas, as tradições e as raízes culturais fantásticas do território nacional e procurar o contraponto trágico para a vista e outros sentidos, ficará vacinado de vez contra os mitos, as mentiras e as atrocidades propagandísticas da União Europeia/CEE.
Sabemos que a União Europeia, através da inteligentíssima desindustrialização, que agora precisa de ser invertida, como proclamam os irresponsáveis dirigentes, ficou vulnerável e irrisória, do ponto de vista produtivo e competitivo, perante o resto do mundo. Agora aqui d’el rei que os bárbaros querem destruir o nosso jardinzinho.
Para conhecer, sem sofismas, a imensa chaga deixada no sector produtivo português ao cabo de 40 anos de UE e de federalismo cada vez menos indisfarçado, está disponível uma volta a Portugal em ruínas industriais – e com roteiros bastante diversificados, consoante a vontade do viajante.
Se quiser começar pela capital, visite regiões de Marvila e do Beato, onde se produziam artigos tradicionais de consumo comum, como os prosaicos fósforos, sabões, massas e bolachas, alguns deles agora importados, e detenha-se na enorme ferida que é a Rua do Açúcar.
Adverte-se, desde já, que o panorama geral das ruínas já foi amainado pela museologia da arqueologia industrial e, em várias outras regiões ex-produtivas das margens norte e sul do Tejo, por condomínios privados e de luxo, destinados às riquíssimas minorias nacionais e aos especuladores estrangeiros que podem dar-se a esses luxos.
Depois siga por Mafra e Sintra, mais precisamente Pêro Pinheiro, Montelavar, Maceira e Pedra Furada, e conhecerá as chagas da indústria do mármore, actividade quase artesanal, artística, familiar e desenvolvida em pequenas e médias empresas que colocaram Portugal no topo internacional da qualidade neste sector.
Não se fique por aqui e reserve um tempo para descer até ao chamado anticlinal de Estremoz, também conhecido pelo “triângulo do mármore Borba-Estremoz-Vila Viçosa”. Tanto nos concelhos de Mafra e Sintra, como na citada zona do Alentejo, os cenários repetem-se, como maior ou menor densidade: ruínas de fábricas e armazéns, restos e cacos de mármore espalhados nas imediações, esqueletos de máquinas enferrujadas, amplas pedreiras abandonadas, transformadas em lagos insalubres pestilentos. A União Europeia ignorou as pequenas e médias empresas, desprezou a qualidade e abriu o sector à “livre concorrência”, isto é, a uma concorrência desleal em que os grandes empórios, sobretudo não-europeus, devoram os lugares onde o trabalho árduo e competente produzia arte. A qualidade do produto importado é muito inferior? Não interessa, os lucros são muito maiores e assim é que deve ser, para todos prosperarmos.
O leitor pode seguir depois pelos caminhos da extinta indústria pesada, onde o escândalo ganha ainda maiores dimensões. As estruturas industriais da CUF/Quimigal, no Barreiro, desabaram em quarteirões imensos mortos e fantasmagóricos; o magnífico e imenso santuário da indústria naval na Margueira, em Almada, admirado pela qualidade do seu trabalho, transformou-se num cemitério tão desolador como revoltante; o alto forno abandonado em Paio Pires, Seixal, assinala a redução à ínfima espécie da produção siderúrgica. Entre Almada e Setúbal, a obra da União Europeia e da respectiva desindustrialização expõe os efeitos de uma guerra contra Portugal da qual resultou a destruição quase total das outrora florescentes indústrias química, metalomecânica, siderúrgica, da reparação e construção naval.
De Lisboa a Vila Franca de Xira multiplicam-se as ruínas daquele que foi o epicentro do magnífico sector da cintura industrial de Lisboa situado na região a norte do Tejo. Vale a pena conhecê-las e admirar os destroços produzidos pelo querido europeísmo.
Requiem pelos têxteis e o vidro
Na região da Covilhã e no vale do Rio Ave pode o leitor testemunhar como a integração europeia exterminou a emblemática indústria têxtil, orgulho de Portugal, a maior concentração operária feminina de sempre e sustento de centenas de milhares de famílias.
Nas margens de ribeiras, tanto na Beira Baixa como através dos concelhos de Santo Tirso, Famalicão, Guimarães, Vila das Aves, Vizela e outros sucedem-se os complexos de fiação abandonados, os restos de naves vazias ou com destroços de máquinas e os bairros operários degradados.
Na Marinha Grande multiplicam-se restos mortais de outro orgulho de Portugal, a indústria do vidro. Vêem-se fornos que além de frios estão em ruínas, mais um cartão de visita da União Europeia a que podem associar-se os destroços industriais nas regiões de Coimbra, Figueira da Foz, das moagens de Montemor-o-Velho e dos bolsões produtivos de Cantanhede, Condeixa e Lousã.
O roteiro das feridas abertas em Portugal ficará mais completo se o viajante não perder de vista os sinais profundos de abandono dos complexos mineiros do Lousal (Grândola), Pejão (Castelo de Paiva) e do desprezo pelos recursos da faixa piritosa ibérica, em Aljustrel, Beja, lugar de intensa, dramática e incansável luta operária contra o fascismo.
Consequência de todo esta actividade produtiva arrasada – e em sentido contrário ao desenvolvimento da utilização do comboio através da Europa – é o abandono de estruturas ferroviárias no território nacional, em especial na Beira Interior, e a continuação da desertificação do país.
Linhas e ramais sem utilização, estações abandonadas, oficinas em ruína entregues à ferrugem e à vegetação invasora, apeadeiros mortos, carris inutilizáveis, enferrujados e soltos – o cenário não podia ser mais desolador, além de ter um âmbito praticamente nacional.
Os poderes e respectivos apêndices começaram a celebrar as quatro décadas vividas por Portugal no Interior da CEE/União Europeia. A insensibilidade desumana de uma festa no lugar de um requiem: milhões de vidas destroçadas e mergulhadas na pobreza, prejuízos incalculáveis que pesam sobre os cidadãos, um país em extinção e a dignidade nacional perdida – eis o que os nossos dirigentes com responsabilidades nos órgãos de soberania e a comunicação oficial corrompida pela propaganda saúdam alegremente. E lá vão pregando, rindo e mentindo.


