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Depois de uma massiva campanha pró Ucrânia, jornalistas americanófilos de direita estão mais perdidos de que filho de prostituta em dia dos pais. Por um lado, tinham de preferir Trump a Biden porque são de direita ou anti-woke. Por outro, tinham que ser pró Ucrânia porque a guerra Ucrânia X Rússia representa, na verdade, Democracia X Ditadura. Agora que Trump foi eleito e deu um pé na bunda de Zelensky, até mesmo o New York Post, responsável pelo furo do laptop de Hunter Biden, pôs na capa uma foto de Putin com os dizeres “Este é um ditador”.
O artigo que correspondia ao título fora escrito pela chacrete de genocídio Douglas Murray, um gay ateu de direita que, como sóem os gays ateus de direita, adula judeus sionistas. Ele já chegou até mesmo a dizer que as vidas de judeus valem mais do que as de cristãos e muçulmanos – espero que valha mais do que a de ateus pedantes também. O artigo diz o de sempre: pinta Putin como Hitler, que sai expandindo o território russo por pura maldade e, se ninguém o detiver, vai conquistar a Europa toda. Hitler, como se sabe, é o Satanás laico do século XX. Então primeiro há o imperativo de pará-lo porque ele é o ápice da maldade, e só depois se sugere uma consideração prática (impedir que Putin chegue a sua casa). É, portanto, um discurso profundamente moralista.
Ora, o ateísmo, que se pretende lastreado no ceticismo, deve ser bastante econômico na adoção de imperativos morais. Por exemplo: se acreditamos que os grandes textos sagrados dos monoteísmos não contêm nenhuma moral transcendente, então não temos por que aderir a tabus alimentares. Não faz sentido nenhum um ateu fazer um escândalo porque alguém comeu um belo bife na Sexta-Feira da Paixão. No entanto, é possível defender uma moralidade mais generalista a partir da necessidade intrínseca à ordem social. Por exemplo: se acreditarmos que não há problemas em roubar o nosso próximo, ninguém vai nos querer por perto. É o exemplo hipotético da sociedade dos ladrões na República: para manterem uma sociedade, até os ladrões precisam ser éticos com os colegas, mesmo que estejam longe de serem virtuosos. Faz sentido um ateu ficar indignado com roubos. Ao menos no nível social (em vez de pessoal), não é verdade que, se Deus não existe, tudo é permitido. Os chineses que o digam.
Com as grandes navegações e, depois, com a antropologia cultural, foi possível comparar povos em busca de características universais nas culturas. Diante disso, podem-se adotar duas perspectivas antagônicas: ou bem a Providência deu ao homem uma espécie de moral natural, derivada dos sentimentos e do uso da razão, ou bem uma moralidade básica é fruto de seleção natural, de modo que alguns parentes antissociais do Homo sapiens sapiens podem ter ficado pelo caminho.
A política de extermínio de Hitler mexe com essa moralidade básica ou natural, sobretudo se considerarmos que as pessoas de sangue judaico (diferentemente dos ciganos, por exemplo) eram uma parte muito assimilada à sociedade alemã. A ideia de fazer o seu médico trabalhar como escravo esfaimado até a morte e de matar crianças que poderiam estudar com os seus filhos é naturalmente horripilante, antes de ser teologicamente condenável. Faz sentido um ateu se escandalizar com Hitler e transformá-lo num Satanás laico.
Pois muito bem: o que é que Putin fez para ser o Satanás do século XXI? Hitler não foi o Satanás do século XX porque anexou os Sudetos, nem porque foi um ditador (entre vários no século XX). Hitler foi o Satanás do século XX por causa do Holocausto. Como qualquer pessoa bem informada sabe (categoria que infelizmente exclui os devotos de São Zelensky), a minoria étnica russa na Ucrânia, desde o golpe dado com apoio dos EUA em 2014, estava sob os cuidados de um Estado que incorporara ao Exército um batalhão paramilitar neonazista anti-russo (o Batalhão Azov). Assim, ainda que não saibamos de algum plano sofisticado para eliminar a minoria russa, podemos com certeza considerar que há uma justificação humanitária para invasão russa desse território ucraniano. Ou por acaso temos de considerar que a limpeza étnica dos Sudetos, perpetrada após a derrota de Hitler, foi uma coisa boa? E se a Áustria fosse mais forte do que a Alemanha e dissesse a Hitler: “Chega de deportar judeus e ciganos. Pode parar com o programa de eutanásia, também. Senão, vou anexar a Alemanha!” Para mim, estaria tudo bem. Pois usando a minha razão, concluo que o Estado deve servir à preservação da vida humana, e o meu hipotético Estado austríaco seria um Estado melhor do que o da Alemanha Nazista.
A ideia de que jamais se deve iniciar uma guerra invadindo um país não tem nada de evidente. Tanto não tem que, nos anos 2000, a desculpa das armas químicas foi inventada para justificar a invasão do Iraque, sendo que os EUA estavam a bons quilômetros de distância. E olhem que armas químicas não têm o mesmo impacto que armas biológicas: se o combate ao coronavírus justificou tantas anomalias, o que os EUA fariam se acreditassem que o México está desenvolvendo armas biológicas na sua fronteira? Meras sanções econômicas resolveriam? Por que não resolveram com o Iraque? Por aí se vê que o problema não é Putin ter invadido a Ucrânia, mas sim o fato de um presidente que não é dos EUA ter invadido um país com uma reivindicação que não é lastreada na famigerada “ordem internacional baseado em regras”. Convenhamos, indignar-se com isso é algo tão específico quanto se indignar com um bife na Sexta-Feira Santa. A diferença é que um católico sabe que sua indignação se baseia numa religião e não tem nada de naturalmente evidente, pois envolve uma revelação.
E se Putin for um ditador, por que isso deveria ser tão revoltante quanto Auschwitz? O primeiro grande ditador da história não foi Hitler, foi Júlio César. O Império Romano não foi a Alemanha Nazista e seu legado moral é celebrado por qualquer pessoa de bom-senso. Se o povo russo tiver um ditador em vez de um presidente eleito segundo critérios que satisfazem aos americanófilos, não vejo por que o resto da humanidade deveria se indignar. Isso é problema deles. Se quisermos fazer comparações com o nazismo, é mais razoável nos escandalizarmos com a democracia canadense, que não para de ampliar seu programa de eutanásia. Que tipo de moralidade é essa que rechaça o nazismo mas aceita a eutanásia, desde que seja chancelada pelas instituições democráticas? Então a régua moral é o formalismo de um dado sistema de governo, não essa moralidade básica comum à humanidade.
Diante de tudo isso, só se pode concluir que o americanismo não é um mero produto do protestantismo nos EUA. É, e continua sendo, uma religião, à qual até ateus aderem sem sentir. Pior: é uma religião de Estado à qual gente do mundo inteiro adere. O culto aos EUA e ao formalismo democrático está assentado sobre o Destino Manifesto dos calvinistas, e é bom que todo aquele que não o professe abertamente reveja as suas crenças.